‘Uma Vida Oculta’, um Malick essencial
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‘Uma Vida Oculta’, um Malick essencial

Luiz Zanin Oricchio

03 de março de 2020 | 13h00

Terrence Malick, cineasta de vocação metafísica, trata de uma biografia real neste Uma Vida Oculta. Fala de Franz Jägerstätter, fazendeiro austríaco preso e condenado à morte por se recusar a servir no exército alemão durante a 2ª Guerra. 

Há o contexto histórico. Hitler anexa a Áustria (o chamado Anschluss), sob apoio quase total da população do país. Mas Franz (August Diehl) é o que se chama de um “objetor de consciência”. É contra a guerra, que faz coisas erradas com os nossos semelhantes, como ele diz. Convocado, recusa-se a lutar. Algumas oportunidades lhe são abertas: pode se recusar ao combate, mas se servir num hospital, tudo lhe será perdoado. Recusa-se. Por último, basta-lhe assinar um pedaço de papel jurando lealdade ao Füher. Também se recusa. 

Bem, há aí o aspecto religioso. Franz é católico fervoroso. Como um idiota (no sentido de Dostoievski, isto é, da pureza de princípios), recusa-se a se engajar numa atividade que lhe parece (e é) anticristã. Deve lealdade ao seu Deus, não a Hitler. Implora a esse Deus nos momentos de maior agonia. Deus, como é do seu costume, não se manifesta. Inútil dizer que essas sequências lembram a passagem de Jó na Bíblia. E do próprio Cristo: “Pai, por que me abandonaste?”

Essas evocações ganham forma na montagem poética de Malick. Muitas falas se dão em voice over, como emanando da própria subjetividade do personagem. Ao mesmo tempo, há essa relação com a natureza, esse panteísmo de fundo que nunca abandona Malick, nem mesmo numa história ambientada no horror da guerra. Algo assim como o  Deus que está em toda parte, em toda a sua gloriosa criação. Essa difusa presença divina se dá pelo jogo inteligente das imagens, que nos coloca num ambiente além do físico. Metafísico e transcendente, portanto. 

Tudo isso, e o obstinado sofrimento do personagem, nos jogam numa grande comoção, mesmo que não sejamos religiosos. Porque a coisa pode ser vista em outro plano – o da ética. Da firmeza de convicção que não transige, mesmo que implique perder tudo – a pacífica convivência com a mulher e a família, e, no fim, a própria vida. 

Um grande filme, sem dúvida, com detalhes que o enfraquecem, a meu ver. O principal deles, o uso da língua inglesa pelos austríacos. Gera uma artificialidade que a obra não merece. Os próprios alemães falam inglês. A não ser quando ameaçam ou dão ordens. Aí então é em alemão, gritado, latido, pode-se dizer. Sem legendas, porque o que dizem não necessita tradução. 

Essa opção (exigência da produção, provavelmente) tira um pouco de brilho do filme, mas não abala sua força. Entendemos, mesmo não sendo religiosos, qual a ideia de Malick sobre seu herói quase anônimo. Ela está numa citação da escritora George Eliot (assinava com nome masculino para poder escrever) em seu romance Middlemarch, de 1872. Ela escreve que boa parte do bem que existe no mundo se deve a pessoas que viveram com fé suas vidas ocultas e hoje repousam em tumbas não visitadas. 

A título de informação extra cinematográfica. Em 2007, Franz Jägerstätter foi beatificado por Bento 16, o papa alemão. 

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