Uma Relação Delicada
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Uma Relação Delicada

Luiz Zanin Oricchio

23 de maio de 2014 | 10h50

 

Maud Schoenberg (Isabelle Huppert) é uma cineasta que sofre derrame cerebral e desperta com metade do corpo paralisado. Seu desafio será conviver com sequelas causadas pela doença.

Mais uma vez a incrível Isabelle Huppert encara um papel difícil e, para variar, sai-se muito bem. O que com outra atriz pareceria artificial ou forçado, nela soa com naturalidade. O andar problemático, os gestos dificultados pela paralisia, a angústia com um corpo que não obedece – tudo nela ganha valor expressivo e dramático.

Mais ainda quando ela decide que limitações físicas não serão empecilho para o seguimento de sua carreira e passa a procurar um ator para seu próximo filme. Julga encontrá-lo quando assiste pela televisão à entrevista de Vilko Piran (Kool Shen), escroque internacional que dera golpes milionários e passara 12 anos na cadeia por seus crimes.

Maud se impressiona com o caráter forte do entrevistado, sua insolência, olhar duro, ausência completa de culpa. “É meu ator”, diz-se. E procura o homem para saber se ele deseja fazer uma experiência no cinema. Dessa maneira tem início a tal “relação delicada” de que fala o título brasileiro. O original francês é Abus de Faiblesse, expressão jurídica que define o delito de fazer uma pessoa assinar algum documento lesivo a seus interesses abusando de sua fraqueza ou ignorância. Cabe dizer que o personagem Vilko é baseado em Christophe Rocancourt, conhecido como “o escroque das estrelas” e que teria enganado a própria diretora Breillat. A cineasta o processou e corre agora um recurso de Christophe contra Breillat por direitos de imagem no filme. A diretora afirma que a obra é ficcional.

E é dessa forma que devemos vê-la no cinema. Independentemente do imbróglio jurídico, a história ficcional mostra potência. A relação entre Maud e Vilko é um pequeno estudo de violência psicológica e sadomasoquismo. A fragilidade de Maud, apesar do andar claudicante e de seus ataques de epilepsia, parece bastante relativa. Servindo como alter ego da diretora, Huppert encarna uma personagem decidida, que pode sim ser frágil em certos momentos, mas sabe ser bem decidida em outros. O Vilko de Kool Shen é tão petulante e autocentrado que às vezes parece risível sem deixar de ser atemorizante. A tensão entre os dois faz o filme crescer e ficar muito interessante.

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