Uma recordação de Ricardo Piglia
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Uma recordação de Ricardo Piglia

Luiz Zanin Oricchio

10 Janeiro 2017 | 18h33

piglia

ricardo

A ceifadeira continua seu trabalho em 2017, levando sempre gente do nosso time. Ou seria impressão nossa? Em todo caso, este começo de 2017 não está nada animador: já se foram Irene Stefania, Ricardo Piglia, Zygmunt Bauman.

Falo primeiro de Piglia.

Nunca vou me esquecer de quando o conheci. Esteve em São Paulo, no início dos anos 1990, para lançar um de seus livros, A Cidade Ausente, belo como todos os outros que escreveu.

Piglia foi hospedado pela editora (a Iluminuras, do Samuel Leon) num hotel discreto e aconchegante nas imediações da av. Paulista. Uma velha casa, em estilo europeu, bem conservada e tocada por suíços. Tinha poltronas de couro, lareira e tudo mais. Foi em torno dela que conversamos e, como fazia frio, tomamos um conhaque. Talvez mais de um. Conversamos sobre literatura e política durante horas. Foi uma das “entrevistas” mais prazerosas da minha carreira. Coloco a palavra entrevista entre aspas porque foi muito mais bate-papo entre amigos recém-conhecidos que conversa formal entre repórter e fonte. Isso deu-se em 1993.

Anos depois Piglia voltou a São Paulo para lançar seu Plata Quemada, que havia virado filme. Fui vê-lo mais uma vez, mas agora, talvez assoberbado por entrevistas seguidas, não mostrou a mesma disponibilidade. A minha recordação melhor vem daquela conversa diante da lareira, na tarde fria.

O papo, claro, passou pelos autores referenciais da Argentina, Macedônio Fernandez, Roberto Arlt e, claro, Borges e Cortázar. Não sei direito por quê, passamos um bom tempo discutindo um conto de Cortázar que era paixão comum – La Lejana, que, creio, foi traduzido aqui como A Distante. Tenho na minha mão o livro e a dedicatória que me fez, fazendo referência a essa conversa e ao conto.

Continuei a ler seus livros, sempre me identificando com essa prosa erudita e nunca pedante. Alvo Noturno é uma pedida e tanto. E guardo com especial carinho um volume de ensaios mais recente chamado O Último Leitor. Nele, um texto em especial, sobre Che Guevara leitor, o homem que sobrecarregava sua mochila de guerrilheiro com grossos volumes de literatura e filosofia. Diz-se que Guevara lia Kant enquanto seus homens descansavam ou contavam anedotas para relaxar. A capa desse livro de Piglia é ilustrada com uma foto antológica, um tanto borrada pelo tempo e pelas condições em que foi feita. Mostra o Che, durante a guerrilha suicida na Bolívia, sentado no galho de uma árvore. Concentrado. Lendo um livro.   

Tchau, Ricardo. Un saludo.

 

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