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Uma Rebelde sem Causa no último Roteiro de Truffaut

Luiz Zanin Oricchio

09 de abril de 2012 | 19h35

 Outro dia morreu Claude Miller. Fui ao arquivo e exumei alguns textos antigos que escrevi sobre ele. Deem uma olhada na data lá embaixo. 

 

Ladra e Sedutora (La Petite Voleuse) chega a São Paulo com o charme de ser o último argumento original assinado por François Truffaut. Dirigido por Charles Miller, o filme conta a história de Janine (Charlotte Gainsbourg), uma jovem cleptomaníaca que vive na campanha francesa no final dos anos 40. Janine foi abandonada pela mãe e mora com os tios. Um verdadeiro fardo, que se torna mais pesado pelo hábito da menina de se apropriar dos bens do alheio.

 Poderia ser um drama psicológico, mas não é. O espectador é levado, num primeiro momento, a supor que a menina furta para suprir sua carência afetiva, ou algum clichê do gênero. A arte de Truffaut, como autor do argumento, e de Miller, como diretor, estaá em superar esse tipo de banalidade. Janine não é um caso psicológico nem social: o ser humano não se acomoda tão facilmente a esses compartimentos estanques. Janine é uma revoltada, no sentido preciso em que o termo designa os heróis sem causa. Furtar é só uma vertente da sua personalidade. Seduzir, como coloca em evidência o título em português, apenas outra.

No final das contas, Janine é uma empreendedora. Faz besteira sobre besteira, mas tem a coragem de assumir a responsabilidade pelo próprio destino. Por trás de sua vida errada e seu amadurecimento, o que aparece são as duras condições das classes populares na reconstrução do pós-guerra francês. A vida é cruel com Janine. Ela paga na mesma moeda. Ladra e Sedutora evita a visão unidimensional do mundo. É o que se pode esperar do melhor cinema europeu – servir de antídoto à obviedade servida fartamente por Hollywood.

 

 

(Caderno 2, 18/10/1991)


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