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Uma proposta da Cahiers du Cinéma a Sarkozy e Ségolène

Luiz Zanin Oricchio

23 de abril de 2007 | 09h10

Enquanto os eleitores franceses se dividem entre Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal, a revista Cahiers du Cinéma se endereça aos dois. Tanto o candidato de centro-direita quanto a candidata de centro-esquerda são citados no número de abril. A matéria de capa – ilustrada pela célebre imagem de Chaplin com a bandeirinha ‘vermelha’ em Tempos Modernos – traz 12 propostas para o cinema, elaboradas pela redação da Cahiers. Em seguida, essas propostas são discutidas por personalidades ligadas ao cinema – e pelos próprios candidatos.

Uma delas, a 5ª proposta, talvez seja a mais polêmica e aquela que, ao ser debatida, dá bem idéia da partição ideológica das duas candidaturas em relação à cultura e a tudo o mais, já que é inútil separar as coisas. A proposta da Cahiers é limitar o número de cópias dos filmes lançados. Aqui cabe um esclarecimento: é prática comum dos chamados arrasa-quarteirões (block busters) estrear com centenas de cópias, tomando de assalto a quase totalidade do circuito cinematográfico. Acontece na França; acontece no Brasil e em toda parte. Veremos esse fenômeno se repetir dia 4 próximo, quando aqui aportar o terceiro filme da série Homem-Aranha.

Diz a proposta da Cahiers: ‘A estréia de certos filmes com 600, 800 ou até mil cópias torna ilusória qualquer política cultural eficaz. Saturando o circuito e monopolizando a atenção dos meios de comunicação, ela impõe aos outros filmes um acesso minúsculo nas salas restantes e gera uma rotatividade ultra-rápida de filmes que, não dispondo de meios promocionais, precisam permanecer no circuito para encontrar seu público.’

Ségolène Royal disse que, eleita, vai propor uma discussão entre o Ministério da Cultura e o CNC (Centre National de la Cinématographie) para resolver essa questão. Ela se diz ‘preocupada com a inflação do número de cópias de títulos cada vez mais numerosos’. Já Sarkozy vai no sentido oposto: ‘Não sou favorável à interdição ou limitação do número de cópias em circulação. O cinema deve ser um domínio no qual a liberdade de expressão seja soberana, e limitar já é censurar.’ Cabe lembrar que a França ocupa cerca de 50% do seu mercado interno com a produção nacional, ante 10% do Brasil.

O problema não é apenas quantitativo. A semanal Le Point deu em sua edição de 29 de março uma matéria interessante sob o título de On a Tué le Vrai Cinéma (Mataram o Verdadeiro Cinema), que comenta o livro Cinéma: Autopsie d’un Meurtre (Cinema: Autópsia de um Assassinato), do crítico Pascal Mérigeau. Ele não usa eufemismos para definir a crise do cinema contemporâneo e vai ao ponto: ‘O cinema pessoal e mais ambicioso já não encontra o seu público.’

Lembra Mérigeau, que escreve na Le Nouvel Observateur, que 30 anos atrás diretores como Stanley Kubrick, Milos Forman e François Truffaut conseguiam colocar seus filmes entre os 20 mais vistos na França. Hoje, os títulos de maior empenho artístico têm de se contentar com guetos. É o efeito do que ele chama de ditadura da opinião comum: ‘Um bom filme não é mais aquele filme que todo mundo deseja ver, mas o filme que todo mundo vê torna-se um bom filme.’ Inversão de valores, ditadura da maioria, uma quase citação de Tocqueville por parte desse crítico lúcido. Ele lista as razões de predominância desse ambiente ‘cultural’ contemporâneo: culto aos filmes que satisfazem desejos imediatos de platéias pouco dispostas ao pensamento e outras sutilezas do espírito; capitulação de uma imprensa dócil ao mercado; por fim, o beijo da morte da televisão, que impõe seu formato estético ao mundo do audiovisual e cria, assim, um padrão único. Sentiu alguma familiaridade nisso tudo?