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Uma produção mais diversificada ainda é o desafio

Luiz Zanin Oricchio

12 de novembro de 2013 | 14h44

O texto abaixo comenta esta reportagem sobre o recorde de lançamentos e renda do cinema nacional em 2013. 

 

Talvez seja exagero considerar esses números favoráveis como uma espécie de ponto de chegada do cinema brasileiro, como se tudo já estivesse resolvido. Pelo contrário, há muito a caminhar. Mas que significa um belo progresso em relação a tempos mais difíceis, isso ninguém há de negar.  Ainda mais se compararmos, como deve ser feito em termos de rigor historiográfico, com o início da década de 1990, quando o cinema brasileiro quase chegou a desaparecer.

Isso, convém recordar, deu-se durante o governo Collor, quando todas as entidades de apoio ao cinema brasileiro foram liquidadas com uma penada. Embrafilme, Confine, Fundação do Cinema Brasileiro – tudo isso desapareceu sem que nada fosse colocado em seu lugar. O mercado se incumbiria de resolver, raciocinou-se, nos moldes do ultra liberalismo econômico dominante. O mercado “resolveu” que não precisava do cinema brasileiro e este quase sumiu do mapa. A produção limitou-se a dois ou três longas por ano, com ocupação quase nula do mercado de exibição.

Com Collor defenestrado, pode-se dar início a uma política de recuperação, com leis de incentivo e concursos emergenciais. Esta época foi batizada de “retomada” e assistiu ao crescimento progressivo da produção nacional. Alguns marcos a sinalizaram como Carlota Joaquina – a Princesa do Brasil, de Carla Camurati, que superou a barreira de um milhão de espectadores no cinema. Ou, mais recentemente, Tropa de Elite 2, que superou a marca “insuperável” de quase onze milhões de ingressos vendidos de Dona Flor e Seus Dois Maridos, lançado no auge do prestígio e eficácia da Embrafilme.

Ao longo desses anos, a produção brasileira foi se estabilizando em torno de um patamar de 10 a 15% de ocupação do mercado interno, em termos de bilhetes vendidos nos cinemas – o chamado “market share”.  A produção de filmes tem aumentado, mas a ocupação do mercado nem tanto. Um número não depende diretamente do outro. Por exemplo, há um boom de documentários, possibilitado, em especial, pela chegada das novas tecnologias digitais, que baratearam demais a produção. Muitos desses filmes, no entanto, se restringem ao circuito dos festivais, ou ocupam horários muito restritos nas salas de exibição. Muitos entram e saem de cartaz com número mínimo de espectadores, sem deixar rastros na cena cultural do País.

Por outro lado, é voz corrente que o público tem se tornado cada vez mais seletivo e monotemático. Em termos de cinema nacional fazem sucesso comédias protagonizadas por atores globais ou histórias de ídolos do rock. Aos que escapam a essa regra geral não cabe outro recurso senão chamá-los de exceção. Filmes de temática ou linguagem alternativas não têm vez no mercado. Disputam cada vez mais a atenção de um público segmentado, que também se interessa pelas exceções internacionais. É pouca gente para muito filme. Salas lotadas com documentários brasileiros ou ficções do Iraque ou do Cazaquistão, durante os festivais, não devem impressionar ninguém. Ao longo do resto do ano esse público some. E ficam as comédias, cujo veio ninguém consegue avaliar quanto tempo pode durar. Será explorado ad nauseam, mas não para sempre.

De modo que resta ao cinema brasileiro o desafio de apresentar uma cinematografia mais diversificada e que encontre seu público. E que esse encontro se dê de maneira durável. A longo prazo, é claro, isso não se fará com o experimentalismo estéril restrito a alguns festivais e nem com o prolongamento da estética e temática da TV na tela grande. Esse recurso fácil não pode dar certo indefinidamente. Até lá será preciso buscar essa parcela do público que deseja ser respeitada pelos diretores mas também não se conforma com o mais do mesmo das comédias. Há um longo caminho a ser percorrido.

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