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Uma Noite no Museu

Luiz Zanin Oricchio

13 Janeiro 2007 | 12h51

Uma Noite no Museu, de Shawn Levy, é uma produção dirigida para o público infanto-juvenil. A informação é importante para sabermos, de antemão, o que podemos esperar do filme. Segundo os cânones atuais, um produto desse tipo deve ter diversão, muita correria, algum suspense, pouca complicação e um fundo edificante. Produção de Cris Columbus (de Esqueceram de Mim), Uma Noite no Museu tem tudo isso. Todas as variáveis da fórmula se encaixam em seus lugares.

O protagonista da história é Larry Daley (Ben Stiller), sujeito que tem vários problemas na vida. Um deles é que não consegue se fixar num emprego. O outro, decorrente deste, é que fica mal aos olhos do filho, a quem vê de vez em quando porque está separado da esposa. Pior: o novo marido de sua ex-mulher é um protótipo daquilo que na sociedade americana se chama de vencedor. Um winner de boa cepa, trabalha na Bolsa de Valores e já está conseguindo certa ascendência sobre o enteado (Jake Cherry). Portanto, arranjar e depois segurar o emprego de vigia noturno no Museu de História Natural é para Larry não apenas uma questão de sobrevivência material, mas principalmente psicológica.

O filme tem alguns trunfos interessantes, como a engraçada trinca de veteranos, Michey Rooney, Dick van Dyke e Bill Cobbs, que fazem os vigias noturnos a serem substituídos por Larry. Outro ponto forte, é o sempre engraçado Robbin Williams no papel de uma estátua do presidente Theodore Roosevelt, aquele do Canal do Panamá, ideólogo de uma política externa agressiva, quase à la Bush, e partidário daquilo que ele mesmo chamou de diplomacia do “big stick”, o popular cacetão. Dizia Roosevelt que, quando não se podem resolver as questões em bases civilizadas, bem, é conveniente dispor de um bom tacape e saber usá-lo na hora certa. Coisas do passado, como se sabe.

Mas claro, o Roosevelt do museu que, como seus colegas empalhados ganha vida durante a noite, não exibirá no filme essa desagradável truculência do personagem real. Ele é todo sabedoria e compaixão. Sofre por ser apaixonado por uma índia de cera e não saber como abordá-la e será o guru de Larry quando este fraquejar. De resto, o museu inteiro se movimenta durante a noite. Esqueletos de dinossauros ganham vida, caubóis combatem legiões de romanos, hunos brigam com mongóis e assim a história universal ganha vida diante dos olhos atônitos de Larry.

O problema do filme é como se segurar durante quase duas horas (108 minutos) na base de uma boa sacada só. Daí o fato de surgirem várias “barrigas” para preencher o tempo ocioso. Algumas dessas histórias paralelas até que não são más, como, por exemplo, quando parte dos habitantes do museu decide conferir como é a vida “lá fora”.

Mas, no geral, o tempo é preenchido com correrias dentro do museu, e essa depois da admiração inicial que o espectador possa sentir diante dos efeitos especiais bem realizados, estes tendem a cansar, pela simples repetição. Outra parte do tempo é gasto no alinhavo melodramático que supostamente dá ao filme seu caráter edificante – a reabilitação do pai diante do filho, uma questão sempre presente em sociedades modernas, com grande número de casais separados. E mais ainda hoje em dia, com as mulheres há muito senhoras do mercado de trabalho e o papel tradicional do pai, como provedor, conseqüentemente muito fragilizado.

No caso mais agudo de Larry, ele tende a ser uma espécie de escória da sociedade americana, aquele tipo de cara que não encontra emprego, e quando encontra, não consegue segurá-lo. Pouco confiável socialmente, não tem credibilidade para ser um pai. Precisa então provar que não é nada disso, domando as aparentemente incontroláveis figuras do museu. E assim o filme ganha seu aval “humanista” e pode se orgulhar de contribuir para algum tipo de mensagem positiva, além de proporcionar honesta diversão.

Há outro sub-enredo também interessante, o da antropóloga triste (Carla Gugino) que não consegue terminar sua tese sobre os primeiros habitantes da América e receberá inesperada ajuda do homem comum Larry Daley. Há toda uma ideologia antiintelectualista embutida aí, junto com a crença na força do homem simples, que consegue lutar contra a adversidade com suas próprias mãos. Assim, Larry estará duplamente reabilitado: diante do filho e diante do saber oficial. Enfim, mesmo no mais humilde dos filmes se pode aprender algo sobre o modo de funcionamento mental da sociedade que o produziu.

Mas, claro, o que interessa mesmo é se as crianças vão se divertir ou não. E a resposta vem da bilheteria: nos Estados Unidos Uma Noite no Museu arrebentou a boca do balão – há três semanas em cartaz, continua na ponta da tabela tendo já arrecadado mais de US$ 160 milhões. É o que conta. Vamos ver se por aqui repete a dose.