Uma noite como não houve igual
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Uma noite como não houve igual

Luiz Zanin Oricchio

25 de janeiro de 2011 | 18h04

 

Ao rever em DVD o documentário Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil, percebe-se que, primeiro, foi mesmo um dos melhores filmes do ano passado, pois melhora a cada revisão. Segundo, que o excesso de material pode ser um doce problema para os diretores, que o resolvem realocando nos extras o que foi podado na montagem.

A opção de edição final revelou-se correta – as músicas finalistas do festival eram mesmo as que tinham de entrar com maior ênfase no filme: Ponteio e Roda Viva, de um lado; Alegria, Alegria e Domingo no Parque, de outro. De quebra, o incidente da desclassificação de Beto Bom de Bola, na célebre apresentação de Sérgio Ricardo, que terminou por jogar seu violão no público depois de tomar uma vaia impiedosa. Mas o que sobrou e foi para os extras (veja texto ao lado) não é apenas material de excelente qualidade, como também comentário e esclarecimento daquilo que foi escolhido para a edição final.

Em outras palavras, a visão do filme, somada à dos extras, dá ao espectador uma noção mais clara do que foi aquela noite dos anos 1960, tão diferente de todas as outras, mas, ao mesmo tempo, uma noite que representa todas as demais daqueles anos conturbados. E tão criativos.

Os diretores trabalham em dois niveis. Num, exploram o magnífico acervo de imagens da TV Record, que realizava os festivais e dominava o ambiente musical nos anos 60. Em outro, realizam hoje entrevistas com os protagonistas de ontem. E rendem muito bem as conversas com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Chico de Assis, Solano Ribeiro, Paulo Machado de Carvalho Fº, entre outros. Se a ideia era recuperar o tônus de uma época, o documentário cumpre perfeitamente seu objetivo. Sim, porque não se tratava apenas de música. Os festivais foram criados apenas para serem “bons programas de TV”, como contam os profissionais da televisão da época. Mas, por força de um clima muito exacerbado, e marcado por cisões tanto políticas como estéticas, os festivais foram muito além desse planejamento inicial. Serviram para demarcar posições e também funcionaram como veículos para sentimentos de revolta que não podiam ser expressos de outra maneira durante uma ditadura.

Quem viveu aquele tempo, ou sobre ele estudou, sabe como as coisas aconteceram. De um lado, havia a contestação ao regime militar, associada a um nacionalismo xiita que via na guitarra elétrica a ponta de lança do imperialismo norte-americano, abrindo caminho para o rock e a Coca-Cola. De outro, havia um grupo que começava a se aglutinar em torno de Caetano e Gil e que, sem deixar de ser avesso ao autoritarismo, dialogava com mais facilidade com o pop internacional. Esse grupo não considerava uma traição à pátria ouvir o último LP dos Beatles ou dos Stones. Já o outro era capaz de organizar uma passeata contra a guitarra elétrica. Hoje é fácil ridicularizar tanto fanatismo e intolerância, mas cada época tem as suas características e a tal “passeata da guitarra” foi antes de tudo um movimento de defesa da cultura nacional. O mérito maior de Uma Noite em 67 é trazer de volta esse ambiente, para nostalgia dos que o viveram e até mesmo dos que não eram nem nascidos na época – como é o caso dos dois co-diretores.

E, sim, claro, as canções eram lindas. Não envelheceram e, para além das polêmicas que ganhavam corpo através delas, continuam marcos permanentes da música popular brasileira em uma de suas fases mais criativas. Aquele tempo hoje parece distante, com suas disputas e radicalismos. Por paradoxo, parece também muito próximo, por uma questão de contraste – dificilmente se vê hoje em dia tamanha energia coletiva como existia nas dependências do antigo Teatro Paramount, onde aconteceu aquela noite. Talvez num show de rock, vá lá, ou num jogo decisivo de futebol.

E, afinal, se muita coisa o vento levou, seus principais personagens foram preservados da ação do tempo. Continuam a ser figuras importantes da vida cultural do País – Chico Buarque, agora mais voltado para a literatura que para a música; o sempre provocativo Caetano Veloso; Gilberto Gil, o ex-ministro de Lula, e o discreto e sempre fundamental Edu Lobo. Eram todos muito jovens naquela época. Hoje, todos eles bem conservados senhores, ainda têm muito a dizer a este país um tanto desacertado e ainda deficiente do ponto de vista cultural.

Extras

Nos extras, temos uma visão em ângulo mais aberto do que foi aquele desfecho de festival. Em especial pela apresentação de outras cinco músicas que ficaram de fora da montagem do longa-metragem: A Estrada e o Violeiro, de Sidney Miller, Bom Dia, de Nana Caymmi e Gilberto Gil, Gabriela, de Chico Maranhão, O Cantador, de Dori Caymmi e Nelson Motta, e Samba de Maria, de Francis Hime e Vinicius de Morais.

Pelos depoimentos, lembramos de como os intérpretes às vezes eram tão ou mais importantes do que as músicas. A Estrada e o Violeiro era longa demais, mas Nara Leão a defendeu com sua classe inigualável. Mesma coisa para Bom Dia, quando uma jovem Nana Caymmi enfrentou com serenidade um início de vaia e virou a plateia para o seu lado.

Havia o reverso dessa boa ação do intérprete sobre a música, quando o compositor era obrigado a engolir arranjos com os quais não concordava. Dori Caymmi, que não é famoso pelo seu bom humor, até hoje se ressente do arranjo do maestro Gaia e da interpretação de Elis Regina para O Cantador. “Era concebido como uma toada serena e a transformaram numa coisa que parecia a ‘pilantragem’ de Wilson Simonal, com mudanças de tom e gestos largos; é tudo errado”, queixa-se ainda, criticando tanto o maestro quanto a frenética interpretação de Elis.

Outro capítulo interessante é o das torcidas, que davam vida e eletricidade aos festivais. Alguns dos torcedores mais atuantes da época são levados ao Teatro Paramount e entrevistados. A mais famosa era Telé Cardim, que chegou a entrar disfarçada de grávida, de óculos escuros e com a peruca de Nara Leão para driblar a proibição dos seguranças. É dela o melhor depoimento: “Aqui dentro era um território livre, em que a gente podia desabafar e até gritar ‘abaixo a ditadura’, o que era impossível lá fora”. Telé fala ainda da vaia: “Era um desabafo;claro que tínhamos as nossas favoritas, mas não havia música ruim no festival”. Se esse singelo depoimento tivesse sido incluído na versão final, talvez a contextualização do filme fosse ainda mais clara do que é, sem por isso cair no didatismo.

Há outros que brilham por sua ausência. A mais notória, a do compositor e cantor Geraldo Vandré, que participou com Ventania, feita em parceria com Hilton Acioly. Não existem imagens de Vandré, nem de época nem de entrevistas recentes, mas as referências a ele são intrigantes. Numa delas, Caetano conta como Vandré impediu uma performance de Maria Bethania, que selaria os laços com a turma da Jovem Guarda. Bethania apareceria de minissaia, botinhas e segurando uma guitarra elétrica mas Vandré fez tamanho escândalo, seguido de ameaças, que ela acabou por desistir. Contra a opinião de Caetano que, como se sabe, tem perfeita noção do valor de uma polêmica na conquista de espaço na mídia. Era assim nos anos 60, continua assim até hoje.

A outra menção a Geraldo Vandré é de Ferreira Gullar, que era jurado da final em 67. Gullar diz que no ano seguinte Vandré foi fazer um show no Teatro Opinião, no Rio de Janeiro. Gullar, que tinha informações de coxia do Partido Comunista, disse a ele que a situação iria engrossar, que o regime tinha tendência de endurecer (como de fato aconteceu, com o AI-5). “Pior do que está não fica”, teria dito Vandré, no que foi contestado pelo poeta: “Sempre há espaço para piorar; você, por exemplo, não poderia estar fazendo este show”, advertiu. Meses depois a profecia do Partidão se realizou e Vandré teve de fugir do País. E, neste ponto, Gullar dá sua versão do episódio. “Fomos nós, do Partido Comunista, que demos fuga a ele. Através da Thereza (Aragão, então mulher de Gullar e mãe de seus três filhos), ele foi para a casa da família Vieira Pinto e depois passou por vários pontos até atravessar a fronteira”. Há outras versões da fuga de Vandré, que teria sido ajudado pela família de Guimarães Rosa.

Enfim, sobre aqueles tempos turvos há mais versões do que fatos. A história ainda esta por ser escrita. Um documentário como Uma Noite em 67 ajuda a lançar luz sobre alguns pontos misteriosos. E chamar a atenção para outros. Cumpre também uma missão histórica. L.Z.0.

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