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Uma Longa Viagem

Luiz Zanin Oricchio

13 de maio de 2012 | 13h25

 

 

De maneira um tanto esquemática, costuma-se dizer que a juventude radical dos anos 60/70 tinha duas alternativas – as armas ou as drogas.

Ambas conviveram na mesma família, a da cineasta Lúcia Murat, e este é o núcleo duro do seu belíssimo documentário Uma Longa Viagem, que entra agora em cartaz depois de vencer o Festival de Gramado de 2011.

A própria Lúcia Murat lutou contra a ditadura e pagou caro por isso. Foi presa e torturada. Mas o personagem mais evidente do filme não é a cineasta e sim seu irmão, Heitor, que foi mandado para o exterior pela família para protegê-lo de um possível envolvimento com a luta armada. É de Heitor a “longa viagem” de que fala o título. Há ainda outro irmão presente na narrativa, o médico Miguel. Mas está presente de maneira discreta, apenas pela narrativa de Lúcia e algumas fotos.

Quem toma a frente é Heitor, entrevistado pela irmã. Ele, e seu “duplo”, interpretado pelo ator Caio Blat, ao ler as cartas que o andarilho enviava à sua família, em especial à mãe. É um recurso interessante, funcional e bastante tocante, afinal de contas. Caio lê as cartas, como se as estivesse escrevendo.  Ao fundo, imagens “em transparência”, evocando os lugares de que fala, alguns exóticos. A técnica foi inspirada pelo curta-metragem Superbarroco, de Renata Pinheiro. A atmosfera assim criada, pela leitura das cartas e pelas imagens em sobreposição, beira ao onírico, mais que ao realístico.

E, de fato, as viagens de Heitor tinham esse caráter de um sonho um tanto desesperado, mas cuja profundidade quase nunca aparece na narrativa das cartas – muito bem escritas, vívidas, mas destinadas mais a sossegar a família do que esclarecer exatamente o que ele estava passando. Esse sentido se completa pelo que fala, com a dicção um tanto prejudicada talvez pelos medicamentos, mas com a inteligência intacta de quem andou muito, muito viu e tanto experimentou. Tudo é expresso com um invejável senso de humor, que contamina (de maneira positiva) o filme do princípio ao fim.

É bom que haja esse tempero, mesmo porque Uma Longa Viagem traz também passagens pouco agradáveis, como a memória dos tempos de cárcere de Lúcia. Ou os episódios de internação de Heitor, como consequência provável de suas trips prolongadas. Há também o elemento deflagrador do filme – o luto pela morte prematura do irmão Miguel, um médico abnegado, cheio de consciência social.

Nesse ambiente, tanto emocional como rigoroso, se estabelecem as maneiras muito diferentes de resistir contra a ditadura e que se deram no interior de uma mesma família: a resistência pelo trabalho social; o confronto armado, a adesão à contracultura. Racionalizadas, essas opções cobririam quase o espectro completo das formas possíveis de sobrevivência em tempos ruins. Pois é claro que, falando de pessoas particulares, Uma Longa Viagem trata de toda uma época da história recente brasileira, uma fase de ruptura, cujas consequências ainda estão presentes na vida de todos e não apenas nas de seus protagonistas.

 

(Caderno 2)

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