Uma Garrafa no Mar de Gaza
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Uma Garrafa no Mar de Gaza

Luiz Zanin Oricchio

25 de abril de 2013 | 11h14

 

Thierry Binist toma a metáfora ao pé da letra para tratar da guerra no Oriente Médio entre israelenses em palestinos. Costuma-se dizer que uma garrafa com uma mensagem lançada ao mar, tem destino incerto. A que dá título a esse filme – Uma Garrafa no Mar de Gaza – chega ao seu destinatário ideal. Ela é jogada à água por Tal, uma garota francesa, judia, habitante de Jerusalém. A garrafa, com a mensagem, e um endereço de e-mail, é encontrada por um jovem palestino de Gaza, que resolve estabelecer contato com a missivista.

Claro, trata-se aqui de um expediente, digamos, cinematográfico, partindo do pressuposto de que, pelo menos na ficção, uma carta sempre chega ao seu destinatário, mesmo que por vias transversas. O que importa, no caso, é que se estabeleça um diálogo entre pessoas que não teriam qualquer outra chance de se comunicar. E, mais, que por suas origens, nem deveriam tentar entender um ao outro. Naim, palestino, e Tal, judia, teriam, segundo a tradição, de se odiarem. E, no entanto…

O que se pode dizer é que Uma Garrafa no Mar de Gaza segue a linha de filmes como o recente O Filho do Outro, de Romaine Lévy. Neste, usa-se o expediente de uma troca de bebês para discutir o que existe de intrinsecamente cultural na formação da identidade de cada um de nós, suplantando amplamente a genética. Agora, é a garrafa lançada ao mar que, ao acaso das ondas, dá início a um diálogo improvável entre seres de sexos opostos.

Claro que há um tanto de romantismo na maneira como a história é conduzida. É preciso uma dose de tolerância com a narrativa para que ela faça sentido. Mas também é preciso dizer que o diretor não se vale de facilidades na aproximação entre Tal e Naim. Ela é áspera, problemática, perigosa – da mesma forma como se dá o relacionamento entre seus respectivos povos. Da mesma forma, não propõe um final feliz e artificial, desses que colocam em segundo plano todos os problemas antes expostos (afinal, a última impressão é a que fica). Não. O final é aberto e, ele mesmo, problemático.

No entanto, existe a nota fácil que consiste em transformar a mera aquisição do idioma francês em signo de distinção e sofisticação. É como se Naim escapasse à sua condição pelo simples fato de frequentar um círculo francês e aprender a língua e a cultura do país de Tal. Nesse ponto existe um subtexto um tanto inquietante do filme, e que remete aos velhos sonhos coloniais franceses e sua ilusão de que estaria levando a civilização aos povos dominados. Basta lembrar da Argélia, por exemplo…

Enfim, é uma nota desnecessariamente dissonante num filme bonito, humanista e bem interpretado. Seu pecado maior seria a ausência de ponto de vista sobre o conflito. Como se essa questão se resolvesse apenas pela boa vontade e isenção de espírito das pessoas. Nesse ponto, é um tanto ingênuo.

 

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