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Uma Garota Dividida em Dois

Luiz Zanin Oricchio

18 de julho de 2008 | 19h25

Em Uma Garota Dividida em Dois (Une Fille Coupée em Deux), Claude Chabrol mais uma vez exercita sua veia irônica. Num filme de amor e crime, ele reencena os conflitos da sociedade de classes, do desejo e do amor por interesse. Considera o prazer um tipo de interesse a mais, como o dinheiro. Aliás, é nessa seqüência que as coisas se distribuem – amor, sexo, dinheiro, poder…e crime. Não por acaso o chamam de ”Hitchcock francês”, o que merece um certo tempero. E alguma digressão.

Chabrol faz parte da geração criadora da chamada nouvelle vague, movimento que renovou o cinema francês na virada dos anos 50 para os 60. Cerca de 50 anos atrás, Chabrol lançava seu primeiro longa-metragem, Le Beau Serge, aqui traduzido (ai, ai…) por Nas Garras do Vício. Chabrol, como seus amigos Truffaut, Rohmer e Rivette, adorava Hitchcock, até então considerado apenas um bom artesão, diretor de competentes filmes de suspense. Os rapazes franceses viam muito mais naqueles thrillers. Adivinhavam neles não apenas expressões de uma técnica apurada, mas todo um domínio da linguagem para expor uma determinada visão de mundo. O cinema era isso. Algo a ser buscado não nos ”grandes temas”, nas prestigiosas adaptações de clássicos literários, mas na posição da câmera, no enquadramento, na construção dos planos, na montagem. E, nesse sentido, Hitchcock era mesmo um mestre no domínio da linguagem para obter determinados efeitos, como explica em minúcia na enorme entrevista concedida a François Truffaut (Hitchcock/Truffaut: Entrevistas, aqui editado pela Cia. das Letras).

É possível que essa redescoberta da linguagem cinematográfica se assemelhe à reinvenção da roda. No entanto, ela fez furor na época e continua influente até hoje. Dos jovens críticos dos Cahiers du Cinéma,Chabrol foi o que de mais perto seguiu os passos de papai Hitchcock. Nem tanto pela busca de um efeito de suspense, mas pela temática policial, pela observação das ambigüidades humanas e pelo humor, às vezes negro, que descobre sob situações escabrosas.

Uma Garota Dividida em Dois está cheio delas. A começar pela personagem principal, Gabrielle, 25 anos, vivida pela beldade Ludivine Sagnier. Ela é a moça da meteorologia num canal de televisão. Conhece um dia o escritor, muito mais velho do que ela, Charles Saint-Denis (François Berléand). Casado, sátiro, adepto de práticas sexuais pouco ortodoxas, Charles encanta a moça. Charles é sedutor, mas dificilmente significará um porto seguro para ela. Mais promissor, parece o bon vivant Paul (Benot Magimel), rico, doidivanas e ciumento doentio. Um Otelo perigoso, disposto a tudo. A garota ”cortada em duas” oscila entre esses dois homens. Essa a sua divisão, bem diferente da que se vê em Jules e Jim, de Truffaut.

A divisão de Gabrielle é outra, na visão do diretor. Entre o velho escritor de sucesso e o jovem, rico e mentalmente doentio. Há um desdobramento que aqui não pode ser comentado pois representa a melhor reviravolta da história. Desses descaminhos, o que se pode dizer é que Gabrielle experimentará, na carne, o que acontece quando uma mulher do povo, bela que seja, ensaia entrar sem pedir licença na seleta família da burguesia francesa.

O plot se inspira, segundo o próprio Chabrol, num fato realmente acontecido na Manhattan do século 19, quando um arquiteto sedutor meteu-se em imbróglio amoroso e foi assassinado pela marido da sua ex-amante. Conta Chabrol que o escritor E. L. Doctorow faz alusão ao fato em seu romance Ragtime, adaptado para o cinema por Milos Forman. O crime, julgamento e desdobramentos já haviam sido mostrados em minúcias no filme O Escândalo do Século, de Richard Fleischer, de 1955.

Chabrol sabe de tudo isso, e encontrou no affair alguns elementos interessantes para trazer a história (real) para a atualidade. Entre esses elementos, a erotomania de um artista mais velho atraído pela juventude de Gabrielle. E, mais que tudo, a relação ciumenta, ”retrospectiva”, do jovem milionário. São dados de instabilidade nas relações que, se bem explorados, redundam em história formidável. A relação possessiva do milionário em relação à jovem, de quem ele deseja controlar mesmo o passado, diz muito não apenas sobre a psicologia do ciúme mas sobre a sociopatia das classes sociais. Esse é um primeiro desdobramento de Chabrol sobre esse tema. O segundo virá depois, com o relacionamento entre Gabrielle e a família de Paul.

Quer dizer, Chabrol parte de um fato realmente acontecido para produzir um ensaio brilhante em vários níveis: estético, psicológico e político. Estético porque observa a sexualidade num domínio em que é transformada em arte, quer dizer, em perversão, no sentido técnico do termo. Psicológico, pela anatomia do ciúme relacionado à mania de perseguição. Político, porque nada disso se dá num vácuo histórico e econômico; nesse contexto (não tenhamos medo da palavra), a voracidade do mais forte se estabelece às claras.

Não falta a Chabrol, e na verdade sobra, o extraordinário senso de humor que faz de toda essa história, no fundo trágica, algo que pode ser absorvido em outro registro – o do tragicômico. Daí a genial saída encontrada para o desfecho. Vá conferi-la.

(Caderno 2, 18/7/08)

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