Conversa de esquina com Carlão Reichenbach sobre Godard
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Conversa de esquina com Carlão Reichenbach sobre Godard

Luiz Zanin Oricchio

07 de dezembro de 2010 | 11h08

Qual a contribuição de Godard para o cinema?

O cinema moderno toma um perfil novo e revolucionário com o cinema desse senhor e é inacreditável que até hoje, nesse seu filme mais recente, é o compromisso com o tempo dele. O que chama a atenção é que é o cineasta mais antenado com seu próprio tempo. A dramaturgia no fundo é essa preocupação de antever o que vai acontecer. O Godard é um desses casos únicos que faz um cinema premonitório. Desde O Acossado até a Chinesa, que previu o maio de 1968. Autorretrato de dezembro é, para mim, um dos seus filmes que mais têm influenciado os filmes recentes. Ele tem essa capacidade de separar o próprio estado de espírito da obra que está sendo realizada.

Qual a influência direta do Godard na sua geração de cineastas?

Pelo menos prá mim, Rogério Sganzerla, João Callegaro, o Godard foi a maior de todas as referências. Mesmo esse fascínio pelo cinema B americano, pelo Samuel Fuller, Nicholas Ray, tudo isso aí veio do Godard. E também do Jacques Daniel Valcroze, não só como cineasta, mas como editor dos Cahiers du Cinema. Filmes como La Denonciation, Amor Livre é um cinema que nasce da reflexão sobre o cinema. A grande novidade da nouvelle vague é essa de os críticos virarem cineastas. Truffaut, Chabrol, Valcroze, eram críticos, ensaístas, pensadores do cinema, que passaram para o outro lado. Cinema que nasce da reflexão sobre o próprio cinema. Imbuída de uma certa rebeldia, às vezes até perversa. A maneira como trataram alguns cineastas clássicos franceses, como Jean Dellanoy, depois fizeram até uma revisão sobre esse radicalismo. Era uma molecagem saudável.

O que marca a nossa geração é essa saudável irresponsabilidade. Para resumir, a influência do Godard foi básica, talvez a maior de todas. Você vê o Bandido da Luz Vermelha, do Sganzerla, e você Godard de cabo a rabo. Há lá outras influências, Welles, por exemplo, mas que eram influências do Godard também.

Haroldo de Campos falava do Goethe: que ele inaugura a citação, a mistura de influências, sem nenhuma nostalgia ou angústia. Deixava de lado a inquietação do “isso já foi feito, isso já foi falado”; ao contrário, faz uma colagem. Talvez o Godard seja o cineasta que mais tenha chupado o pensamento de terceiros. Esse último (Film Socialisme) então é uma loucura; citação do início ao fim. Herança que veio do Goethe; abolir a questão da “propriedade intelectual”, que é o que mais me assusta. Já sou contra qualquer tipo de propriedade, e a intelectual é pior ainda. O Bertolucci foi pedir para usar um trecho de Band à Part em Os Sonhadores e falou: “Godard eu queria adquirir os direitos do filme”. Godard respondeu: “entre criadores não existem direitos; existem obrigações”. Só o Godard prá falar uma coisa dessas.

Qual o seu Godard favorito?

Eu já disse isso mil vezes: o melhor filme do mundo já feito é O Desprezo. É o filme que eu mais vi na vida, acho que mais de cem vezes. É o melhor filme jamais feito sobre o meu meio de expressão. Curiosamente, é um dos filmes dele mais acessíveis, mas é tão especial… Pra mim, é o filme da minha vida. A cada vez que eu o vejo, descubro coisas novas. Ele te perturba desde o inicio, desde a primeira vez que você o vê e te acompanha pelo resto da vida.

Brigitte Bardot, em O Desprezo: fraca, não?

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