Uma câmera na mão…e os beatniks na cabeça
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Uma câmera na mão…e os beatniks na cabeça

Luiz Zanin Oricchio

01 de junho de 2009 | 18h48

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Walter Salles com Gary Snyder em foto de Gregory Smith

Enquanto não filma On the Road, clássico da geração beat, Walter Salles põe o pé na estrada. Dá os toques finais no documentário que prepara terreno para a rodagem do livro de Jack Kerouac, aqui lançado pela Brasiliense e depois L&PM, em tradução de Eduardo Bueno.

Conforme conta na entrevista a seguir, para realizar o doc, Salles, de 53 anos, ouviu vários integrantes da geração beat, como Gary Snyder, Michael McLure, Lawrence Ferlinghetti, Amir Baraka e outros sobreviventes da América da contracultura – que, com sua rebeldia individual, prepararam terreno para os sixties, a década da contestação política por excelência. Como se sabe, muitos dos mais conhecidos beatniks já morreram, caso do próprio Kerouac (1922-1969), autor da obra que se tornaria farol de várias gerações. Mas, como observa Salles, os que ainda estão por aqui, alguns com mais de 80 anos, “mantêm viva a chama da contestação”. São corações que não envelhecem.

Aliás, essa força da juventude, que se faz presente no texto desses escritores, é o que mais fascina o cineasta, que mantém com o romance de Kerouac uma relação amorosa de mais de 25 anos. Apesar de sua extrema influência, o livro permaneceu até agora sem uma versão para o cinema. Ela já poderia ter sido feita no início dos anos 1990, quando Francis Ford Coppola se interessou pelo potencial cinematográfico desse romance escrito em 1951 e publicado em 1957. Coppola produziria, Gus van Sant seria o diretor e Johnny Depp faria Sal Paradise, alter ego de Kerouac e narrador das aventuras físicas e existenciais de On the Road. Com Coppola mergulhado em dívidas, o projeto não foi adiante. Outros beats tiveram melhor sorte. Crônica de Um Amor Louco, de Charles Bukowski, foi adaptado em 1981 pelo italiano Marco Ferreri. Pergunte ao Pó, de Joe Fante, ganhou versão para cinema (2006) de Robert Towne. E, o melhor de todos, Almoço Nu, de William Burroughs, tornou-se Mistérios e Paixões (1991) na mente delirante de David Cronenberg.

On the Road não será o primeiro road movie da carreira de Walter Salles. Pelo contrário. Ele, que mantém diálogo cinematográfico próximo com Wim Wenders (sobretudo o de Paris, Texas), mostra gosto particular pelos filmes pé na estrada. No road movie, a narrativa torna-se confortável para o diretor porque nele muda a paisagem enquanto os personagens evoluem. Numa passagem famosa, Sal Paradise diz que eles estavam “desempenhando a única função nobre de nossa época: mover-se”. Movendo-se, Salles teve em Central do Brasil (1998) seu maior sucesso. O filme pode ser visto como um road movie no qual o garoto Josué (Vinicius de Oliveira) busca o pai, acompanhado por Dora (Fernanda Montenegro) que, na estrada, muda para (re)encontrar-se consigo mesma.

Sua parceria com Daniela Thomas em Terra Estrangeira (1995) já fora uma incursão no gênero. No filme, que fala de uma época em que o brasileiro se sentia estranho em seu próprio país, o que se tem é um road movie internacional, deslocamento de seres desenraizados em busca de alguma estabilidade. Tanto afetiva quanto material. Assim, a atração de Walter Salles por On the Road parece natural – este é o romance pé na estrada por definição.

Enquanto Salles não viabiliza a sua produção, vem o documentário – já rodado e em fase de montagem. Deve chamar-se Searching for On The Road. Em Busca de On the Road. Busca de um tempo talvez perdido, porém recuperado na eterna juventude desses velhos rebeldes do sonho americano.

Como surgiu a ideia de fazer um documentário prévio a On the Road? Ele é uma obra independente, ou serve apenas como preparação ao filme propriamente dito?

As duas coisas. Durante as viagens de preparação de Diários de Motocicleta através da América Latina, senti várias vezes o desejo de registrar aquela busca do filme que queríamos realizar, mas não conseguimos o orçamento para isso. Dessa vez, foi possível inserir o documentário dentro do projeto de On the Road desde o início. O documentário parte à procura de um filme de ficção possível a partir da obra de Kerouac, mas também busca entender o legado da geração beat. Para isso, refizemos as diversas viagens que compõem o livro, encontramos personagens de On the Road que ainda estão vivos, ouvimos os poetas e artistas que fizeram parte da geração beat ou foram influenciados por ela.

Quem você entrevistou? Além do Gary Snyder, Michael McLure e Lawrence Ferlinghetti, há mais sobreviventes da beat generation?

Sim, e o mais impressionante é a saudável radicalidade que esses jovens de 80 anos preservaram. Além dos poetas que você citou, tivemos encontros marcantes com Diane di Prima, Amir Baraka (poeta e ativista negro que, nos anos 50, se chamava Leroy Jones), Hettie Jones, Carolyn Cassady (ex-mulher de Neal Cassady e autora de ?Off the Road?), entre tantos outros. Foram mais de seis meses de entrevistas e de encontros na estrada.

Você entrevistou também gente que foi influenciada por eles, como o Philip Glass e o Wim Wenders. O que sentiu? A “mensagem” dos beats ainda está viva e presente? Ou se tornou datada?

A parte mais fascinante desse processo de aproximação foi justamente entender quanto os beats são atuais e necessários. O movimento beat foi, com raras exceções, criado por jovens filhos de imigrantes que colidiram com a América careta do macarthismo, uma América marcada pela cultura do medo dos anos 50. Ginsberg era filho de judeus comunistas do Leste Europeu, Kerouac de imigrantes do Quebec, Di Prima e Ferlinghetti de famílias italianas marcadas pelo anarquismo – o mesmo anarquismo que Kenneth Rexroth, poeta de São Francisco, já defendia desde os anos 30. Os beats operam uma revolução comportamental a partir da percepção de que a experimentação é vital, de que o sexo ou as drogas podem alargar a nossa compreensão do mundo, de que o jazz e a cultura negra deveriam estar no centro e não na margem, de que a produção literária devia se libertar de todas as normas e se tornar eminentemente epidérmica. Lembre-se que, no início dos anos 50, um cara como Norman Mailer não podia escrever a palavra “fuck” em seus livros. Era obrigado pela censura a escrever “fug you” em vez de “fuck you, man”. Os beats botaram essa realidade de pernas para o ar, e muitos pagaram caro por isso.

Esse documentário será lançado à parte? Ou trechos do material serão utilizados no filme de ficção? Este tem data para começar?

Sim, à parte, primeiro no Channel 4 inglês e depois em várias outras TVs culturais independentes que o financiaram. Estamos em montagem – o documentário de duas horas deve ficar pronto em novembro. Quanto ao filme de ficção, é difícil prever o que vai acontecer com ele, dada a dimensão da crise que afeta o cinema independente. Mais da metade dos filmes independentes que iam ser feitos está parada. Por outro lado, os sequels, as continuações de filmes ditos de franchising, e a adaptação de séries de TV para o cinema pululam. Não só nos EUA, mas em todo canto, Brasil, inclusive. Em época de crise, os produtores tornam-se ainda mais conservadores.

O que o levou à geração beat? Você já filmou outro “estradeiro” como Ernesto Guevara, em sua fase de politização. Muitos dos seus filmes são também “on the road”, como Central do Brasil e Terra Estrangeira. É algo que o fascina?

Sou apaixonado por esse livro há 25 anos. Por uma razão que também é um pouco pessoal: o que torna On the Road único é a percepção de que o movimento beat é a base de quase todas as microrrevoluções dos anos 60. Os anos 60 foram os que formaram a minha geração, são o ponto de referência de quase tudo que me interessa no cinema, na vida, na política. Se o filme de ficção vier a se concretizar, será para mostrar que esses caras tiveram um função eminentemente libertária, e que o nosso mundo não seria o mesmo sem eles.

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