Uma Baía, a poética do Brasil real
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Uma Baía, a poética do Brasil real

Luiz Zanin Oricchio

21 de dezembro de 2021 | 11h54

Uma Baía,  de Murilo Salles, registra o cotidiano de vários personagens que vivem e trabalham às margens da Baía da Guanabara. São oito quadros, em que se destacam ora um indivíduo ora um grupo. 

Qual o “recorte”? Bem, além da localização geográfica, compõe-se de gente que luta para sobreviver. Não se trata de usar esse verbo como lugar-comum. Lutam mesmo no combate diário pela subsistência. Pode ser um barbeiro evangélico que mantém seu pequeno salão, dorme e come lá mesmo enquanto a família mora em outro lugar. Ou um catador de caranguejos no mangue. Ou um mergulhador que tira mariscos dos alicerces da Ponte Rio-Niterói. Ou uma cabeleireira. Ou um fabricante artesanal de barcos. Ou um grupo de mulheres de uma comunidade. Ou mesmo uma comunidade de portuários. 

Trata-se, entre outras coisas, de um filme sobre o trabalho humano. Há os que exercem uma profissão definida e os que se destacam pela versatilidade. Um dos personagens é seguido ao longo de todas as atividades que exerce no dia-a-dia. Pintor, lavador de caixas-d’água, pedreiro e etc. 

O filme tem uma sagaz contraposição de imagens e sons que vêm da televisão. Enquanto essas mulheres e homens se esfalfam pelo pão de cada dia, vêem-se imagens palacianas de Michel Temer durante a sua passagem pela presidência após o impeachment de Dilma. Ou episódios da farsesca trajetória da Lava-Jato, com seus líderes transformados em heróis da mídia naquele período. 

O documentário não precisa de narração em off e nem de explicações de especialistas ou intérpretes. Fala por si. O contraste entre o Brasil real e o Brasil oficial está lá, escancarado na tela. O Brasil real, comovente; o Brasil oficial, burlesco e caricato, como dizia Ariano Suassuna citando Machado de Assis. 

Captadas com paciência e inspiração, essas imagens põem em evidência a  dignidade das pessoas simples, a sua beleza e a do trabalho que realizam, com imenso sacrifício. O registro fotográfico inventivo e o notável trabalho de som somam-se numa experiência imersiva que tanto tem de emocional quanto de reflexiva. O filme ganhou os troféus de montagem (Eva Randolph) e direção (Murilo Salles) no recém-encerrado Festival do Rio. 

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