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Uma atração fatal por mamãe África

Luiz Zanin Oricchio

04 de fevereiro de 2007 | 21h19

O Último Rei da Escócia traz Forest Whitaker em magistral caracterização do ditador de Uganda Idi Amin Dada

Um grande filme se faz somente com um grande ator? É talvez a questão mais pertinente a propósito de O Último Rei da Escócia, de Kevin McDonald, que tem Forest Whitaker como protagonista e uma das barbadas mais óbvias para ganhar o Oscar de melhor ator. Whitaker faz o papel do ditador de Uganda, Idi Amin Dada, e dizer que está estupendo seria usar um termo contido. É daqueles papéis que parecem talhados para um determinado ator como foi o de Ray Charles para Jamie Foxx ou Jake LaMotta para Robert De Niro.

Esse é um princípio. Não se trata de reconhecer que Whitaker está até bem parecido com Idi Amin, porque esta seria uma façanha da maquiagem. O que ele consegue é outra coisa – encarnar talvez a essência mesma do que seja um ditador sanguinário. Esse misto de infantilismo e vontade de poder, esse desprezo absoluto pela existência alheia, esse egoísmo fundamental; enfim essas nuances de caráter que fazem um ditador são captadas, e expressas, de maneira exemplar por Whitaker. Seu Idi Amin é exuberante em seu populismo e na simpatia pessoal, quando assim deseja ser. É também assustador como uma criança mimada que decide maltratar seu bichinho de estimação quando se cansa dele ou se sente frustrada.

Esse magnetismo, em parte fascinante em parte assustador, explica a atração que Amin exerce sobre o escocês Nicholas Garrigan (James McAvoy), médico que vai tentar a sorte em Uganda e conhece Amin por acidente, ao fazer-lhe um curativo para a mão machucada. Acaba por tornar-se seu médico particular e, por fim, conselheiro político.

Não há muita análise política durante o filme, mas deduz-se que Garrigan se deixa convencer pelo discurso populista de Amin, e suas promessas de transformar a pobre Uganda em um país melhor, mais próspero, talvez mais livre. Mas Garrigan se deixa convencer, sobretudo, pelas benesses do poder, por toda essa sorte de privilégios, grandes e pequenos, que assistem àqueles que freqüentam o círculo íntimo de um regime totalitário. E, pensando bem, mesmo nos não totalitários.

O Último Rei da Escócia se divide em partes muito diferentes. Numa, o aspecto mais folclórico de um ditador de aparência bonachona, um fanfarrão de opereta. Noutra, o mergulho no terror de um déspota sanguinário, de quem se dizia que comia a carne dos inimigos para incorporar suas virtudes e valentia. A travessia entre esses dois mundos de Idi Amin Dada é feita pelo europeu branco, que a certa altura se deixa fascinar por uma África sensual e exótica a ponto de colocar em risco a própria pele.

Quem não gosta do filme pode detectar nele uma série de problemas e eles parecem bastante evidentes. Alguns deles, técnicos, como a música onipresente, massacrante mesmo, que não deixa um minuto de sossego para que o espectador repouse e pense um pouquinho. Não se trata de um tema menor. O tratamento da trilha sonora pode arruinar um filme, ou melhorá-lo. Por isso um cineasta como Bresson temia tanto a música que a baniu dos seus filmes e aconselhava outros cineastas a fazer o mesmo.

Outro aspecto, este um pouco mais grave diz respeito ao ponto de vista da narrativa. Por mais que se queira ver o contrário, é sempre pela ótica do ‘europeu civilizado’ que a África ‘inculta’ começa por atrair e acaba por devorar. Tudo isso faz parte de um imaginário que remonta à época da partilha da África e da colonização e não parece ter mudado muito nesses anos todos.

(SERVIÇO)O Último Rei da Escócia (The last King of Scotland, Ing/2006, 125 min). Dir. Kevin MacDonald. 16 anos. Cotação:

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