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Um Verão Escaldante

Luiz Zanin Oricchio

02 de junho de 2012 | 01h09

 
Existem alguns signos interessantes em Um Verão Escaldante. O diretor, Philippe Garrel, é herdeiro da nouvelle vague, o movimento cinematográfico mais influente da França, que pôs no mapa cinematográfico mundial nomes como François Truffaut, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol. Garrel leva adiante o legado dos mestres em obras recentes como Amantes Constantes e Fronteira da Alvorada.

Há também um ator símbolo do cinema francês contemporâneo, Louis Garrel, filho do diretor, considerado beldade masculina, com seus cabelos rebeldes e ar blasé. Se você reparar bem, Louis é herdeiro direto de Jean-Pierre Léaud, o ator fetiche da nouvelle vague, alter ego de Truffaut numa série de filmes semiautobiográficos e protagonista em obras importantes de Godard, como A Chinesa.

Há também Monica Bellucci, a beleza espantosa, monumental, em plena maturidade. Monica é italiana; funciona à maravilha no cinema francês, e neste filme em particular, sendo fotografada com a mesma sensualidade com que Brigitte Bardot o foi em O Desprezo, de Godard. Curiosa inversão: esse filme de Godard, tão francês, é baseado no romance de um italiano, Alberto Moravia. Jogos de espelhos.

Todos esses elementos se combinam quimicamente em Um Verão Escaldante. Na disposição de Philippe Garrel em contar uma história mais alusiva que explícita. No ar romântico e ao mesmo tempo frágil de Louis. Para fechar a conta, na sensualidade à flor da pele de Monica. Ela é uma espécie de pivô dessa série de encontros e desencontros que marcam a passagem de dois casais de amigos por um verão quente na Itália. A temperatura alta é, evidentemente, uma metáfora para o caráter incontrolável do desejo, que percorre a história de uma ponta a outra e sela o destino dos personagens.

Ao apresentar seu filme no Festival de Veneza, Garrel disse que o tom emotivo se devia ao fato de ser ao mesmo tempo memória de juventude e homenagem a um amigo íntimo, morto muito cedo. Não entrou em maiores detalhes, mas percebe-se (isso sempre se nota) o caráter pessoal e portanto de envolvimento profundo com passagens, lugares e personagens.

Um Verão Escaldante é obra de juventude de um autor maduro. Flutua sobre o caráter um tanto fatídico que têm os amores entre moços. Não os amores da maturidade, mais controlados pela experiência e, quiçá, pela desilusão. Mas amores jovens, frescos, a todo vapor; amores do tudo ou nada, dos ciúmes fatídicos, da ilusão da posse completa, do abismo, do flerte com a aniquilação como forma de fusão com o outro. Só assim para se entender como um certo sentimento de autodestruição parece mover um ou outro personagem que, de outra forma, teria a obrigação lógica de ser feliz.

Ou como ser infeliz ao lado de uma mulher como Angèle (Monica)? Pois é um sentimento que não raras vezes experimenta o pintor Frédéric (Louis Garrel). Paul (Gérome Robarde) é seu melhor amigo, e ele é casado com Elizabeth (Céline Salette). Esse é o quarteto que ocupará o centro da história.

Imbróglio amoroso de consequências inesperadas, retratado na tela com o rigor de um mestre da pintura que mescla volumes e cores para exprimir sentimentos. Faz cinema profundo, pintando-o na superfície da tela.

UM VERÃO ESCALDANTE

Título original: Un Eté Brûlant.Direção: Philippe Garrel. Gênero: Drama (Fr-It-Suíça/ 2011, 95 min.). Classificação: 16 anos.

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