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Um time para chamar de seu *

Luiz Zanin Oricchio

11 de junho de 2013 | 09h22

Com a boa vitória de 3 a 0 sobre a França, a seleção brasileira deu um passo na direção de dois objetivos. Primeiro, ter um time de futebol confiável para disputar os títulos em jogo, na Copa das Confederações agora, Copa do Mundo ano que vem. Segundo, para reconquistar a parte da torcida brasileira que se sente afastada da seleção. Esse torcedor brasileiro precisa de um time para chamar de seu. Ainda não o tem. São duas coisas diferentes, porém interligadas.

O futebol, em si. Vi progressos na seleção, apesar do primeiro tempo meio tímido. Na verdade, os franceses jogaram melhor os primeiros 45 minutos. Embora meio desmotivados e sem Ribéry, grande e impetuoso atacante, os franceses ameaçaram várias vezes a defesa brasileira, trocando passes, fazendo triangulações e entrando na área com relativa facilidade.

No segundo tempo, o panorama mudou e os gols foram saindo. O fato curioso: gols marcados por três jogadores originários do São Paulo Futebol Clube e hoje atuando no exterior – Hernanes, Lucas e Oscar. Os gols não saíram por acaso. Foram fruto do bom futebol apresentado. Nada excepcional, sem dúvida, mas já um progresso. Pode sair um time daí.

O segundo ponto é mais problemático e se refere à origem clubística dos jogadores. Oscar, talvez o melhor em campo, saiu do São Paulo brigado, foi para o Inter e daí repassado quase em seguida para o Chelsea. Leva a marca do Inter e, provavelmente por isso, ouviu algumas vaias na Arena Grêmio. Em Porto Alegre, como em outras cidades nas quais existem apenas dois times grandes, a rivalidade entre Grêmio e Internacional é fortíssima, disputa tão séria quanto aquela histórica entre chimangos e maragatos no aguerrido Estado. Quer dizer, a origem clubística do jogador ainda pesa na alma do torcedor. O mesmo se pode dizer de Neymar, ainda identificado com o Santos embora já agora atleta do Barcelona. Mais uma vez decepcionante, Neymar saiu vaiado, com dificuldades para emplacar o papel de ídolo que lhe é designado para a Copa de 2014.

De qualquer forma, essa vinculação do jogador a algum clube, mesmo que formalmente ela já não mais exista, dá certa materialidade à seleção. Ainda que de forma negativa, como vaia. Não devemos nos impressionar com a vaia. Ela é sinal de envolvimento. Devemos, sim, nos preocupar com a indiferença, e vencer essa barreira é o desafio maior da seleção brasileira.

A vaia faz parte da vida. Várias seleções vitoriosas, do passado, foram vaiadas. Conta-se (eu não vi) que a seleção de 1958, hoje um mito para todos nós, foi vaiada em seus jogos treinos. Um garoto chamado Pelé quase foi alijado da campanha da Suécia atingido no joelho pelo corintiano Ari Clemente numa partida preparatória no Pacaembu. Entre a revelação santista e seu tosco zagueiro, a torcida corintiana não teve dúvida de com quem ficar.

Essa identificação da torcida com os jogadores da seleção é difícil de equacionar hoje em dia. Dos onze titulares que começaram o jogo com a França, apenas dois atuam em times nacionais – Paulinho pelo Corinthians e Fred pelo Fluminense. Outros ainda são memórias recentes, como os já citados Oscar, Hernanes, Lucas e Neymar. Já alguns são estranhos completos ao futebol brasileiro. Saíram há muito tempo e deixaram lembranças vagas, ou nenhuma, na memória do torcedor.

Dante, Marcelo, Luiz Gustavo… Quem são? Seria o caso de, como aconselhou o cineasta e colega de crônica esportiva Ugo Giorgetti, a CBF providenciar documentários informativos sobre esses atletas. Para, por assim dizer, apresentá-los ao povo brasileiro. Pode ser que resolvesse, mas acho que não.

Talvez, e é mesmo bem possível, que a seleção chegue à Copa com uma equipe de completos estranhos. Mesmo assim, se jogar de maneira reconhecível, com nosso estilo e sotaque, a torcida terá um time para chamar de seu.

* Publicado no Esportes do Estadão

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