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Um road movie para o mundo global

Luiz Zanin Oricchio

05 de julho de 2008 | 09h14

Quando Alemanha e Turquia jogaram pela Eurocopa, a partida foi tratada como acerto de contas, algo como Argentina e Inglaterra na época da Guerra das Malvinas. Exagero, pois Turquia e Alemanha não estão em guerra como Inglaterra e Argentina estiveram. Mas, de fato, existe um contencioso entre os dois países, por força da enorme presença turca em território alemão e por todos os preconceitos que hoje envolvem a imigração em massa na Europa atual.

O diretor Fatih Akin é, ele próprio, produto desse processo histórico. Nascido em 1973 em Hamburgo, e portanto cineasta alemão, é filho de pais turcos. Vive essa situação de ambigüidade, com um pé em cada canoa cultural. Pois bem, essa ambivalência acaba sendo não uma situação em si instável e precária, mas uma outra maeira de ser, aquela que talvez melhor caracterize este início de sociedade global, ainda fonte de tanto mal-estar. É disso, no fundo, que trata o excelente Do Outro Lado, vencedor do prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes de 2007.

Pode-se dizer que o júri viu de maneira justa – o roteiro é mesmo dos mais engenhosos, sem por isso se tornar pouco crível. Inscreve-se, de fato, naquela linhagem bastante na moda, a das histórias particulares que se intercruzam para formarem, juntas, uma narrativa maior. Pode-se dizer, que, dentro dessa estrutura, Do Outro Lado inova, não toma caminhos já percorridos e oferece um ar de novidade ao espectador.

Um filme (uma obra qualquer) é uma dramaturgia e mais as idéias que nela são debatidas. É, acima de tudo, uma linguagem, o meio de expressão através do qual esses elementos interagem, se friccionam e se transformam em conteúdo.

Na dramaturgia de Do Outro Lado, temos um senhor idoso, cheio de energia, que freqüenta uma prostituta. E, com tal freqüência, que termina por convidá-la a ir morar com ele. Esse senhor, Ali (Tuncel Kurtiz), é turco e vive na Alemanha com um filho, Nejat (Baki Davrak), que não gosta muito do seu relacionamento com a prostituta Yeter (Nursel Koese). Esta precisa do dinheiro ganho no trabalho para enviar à filha, Ayten (Nurgul Yesilcay), que mora em Istambul e faz parte de um grupo de ativistas políticos. O quadro se completa com Lotte (Patrycia Ziolkowska) e sua mãe Susanne (Hanna Schygulla), que se relacionam com os personagens de origem turca de maneira inesperada, como o espectador irá descobrir.

A história é extraordinariamente bem bolada. A tal ponto que as simetrias correm o risco de parecerem artificiais, perigo que Fatih Akin evita com a intensidade dos seus personagens. Anna Schygulla, todo mundo conhece dos filmes de Fassbinder. Mas que ótimos também são alguns dos desconhecidos presentes no elenco, em especial, o veterano Tuncel, que interpreta Ali, e também a atriz Nursel Koese, que vive a prostituta Yeter de forma marcante.

É curioso como Fatih Akin discute a simbiose das duas culturas no próprio nível lingüístico, por exemplo, quando Ali e Nejat discutem, misturando, às vezes na mesma frase, palavras alemãs e turcas. Há aí um tecido de culturas que se forma, e não deveria ser visto de maneira negativa, como às vezes o é. Esse pólo da negatividade será representado por Susanne, personagem de Anna Schygulla, alemã de tendência conservadora, que não pode ver com bons olhos a amizade, bastante estreita, de sua filha, ariana, e uma garota turca.

É parte também da estratégia de Fatih Akin fazer com que os personagens evoluam. Confrontados a dramas, ou impasses existenciais, conseguem mudar de idéia em relação aos outros e a si mesmos. É o que acontece com Susanne em relação à filha e a Ayten, e também com Ali e Nejat. A cena em que este, simbolicamente, se reconcilia com o pai, em longa espera diante do cais, é de cortar o coração.

Do Outro Lado é um filme nitidamente progressista no que diz respeito ao relacionamento entre povos diferentes. Trabalho importante, tema para discussão, no exato momento em que a União Européia endurece sua posição em relação aos imigrantes. A Turquia é um país estratégico nessa discussão. Em termos geopolíticos, é transição entre o Ocidente e o Oriente. Atualmente negocia sua entrada na União Européia na condição de membro de pleno direito. Seus cidadãos que vivem na Alemanha, no entanto, ainda são o ”Outro” na visão de muitos alemães. Essas percepções e preconceitos não mudam com uma legislação. Por isso, parece patético quando um dos personagens insiste, diante de problemas, que ”tudo mudará quando vocês entrarem na União Européia”.

Akin não disfarça ou adoça as realidades em jogo. Se na Alemanha, o preconceito pode ser cruel, na Turquia o Judiciário não passa pelo teste mínimo da moralidade e pode ser má idéia meter-se com garotos de rua que perambulam por Istambul. Tudo isso é visto e, enfim, é com isso tudo mesmo que devemos viver, pois ninguém escolhe o tempo ou o lugar que lhe toca. Pode, sim, escolher como irá viver as realidades que lhe são impostas e o que fará para modificá-las dentro de suas possibilidades.

Essas ações, idéias e emoções são postas num quadro de referência estritamente realista, com espaço suficiente para que as ações se conduzam num road movie entre fronteiras, e as idéias achem seu espaço, sem abafar as emoções. O conjunto passa a sensação de rigor e intensidade.

(Caderno 2, 4/7/08)

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