Um retrato possível da vida militar
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Um retrato possível da vida militar

Luiz Zanin Oricchio

19 de setembro de 2008 | 10h03

Em Brigada Pára-Quedista, Evaldo Mocarzel enfrenta uma parada que pouca gente no métier cinematográfico tem se mostrado disposta a encarar – retratar, por dentro, a instituição militar. Tarefa difícil. As Forças Armadas são instituições fechadas, distinguem com clareza o público “interno” do “externo”. Além disso, há o tabu representado pela lembrança da ainda recente ditadura militar brasileira.

Dessa maneira, a questão da “imagem da corporação” é delicada e recorrente, como sabem os próprios militares. Nesse sentido, é sintomática a palavra de um dos oficiais entrevistados, quando diz que as pessoas vêm à caserna colher imagens e depois a corporação sai desacreditada. A uma possível pergunta do entrevistador sobre o regime militar de 1964-1985, o mesmo oficial responde que são águas passadas; ninguém mais se lembra daquilo e muitos dos que estavam agora naquele quartel sequer eram nascidos na época.

brigada

O que há de mais interessante no filme é a maneira como procura entender o cotidiano dos aspirantes. A rotina, a dureza das provas, os desafios a quem se propõe ser um pára-quedista, numa corporação formada por voluntários, são momentos fortes do longa: a alvorada, a ordem do dia, a ginástica, o treinamento, a preparação para o primeiro salto. O filme se torna interessante quando ouve esses recrutas e, em meio a uma ou outra bravata, recolhe, nas entrelinhas, a constatação de que o serviço militar pode ser uma via de ascensão em país tão desigual como o Brasil, o que nem sempre o antimilitarismo fundamentalista consegue ver.

Mas o que tem de agudo nesses momentos, perde em outros. Por exemplo, para o espectador comum, fica sem sentido o tempo dispensado a explicações minuciosas sobre o material de filmagem durante os saltos – uma engenhoca instalada no capacete do pára-quedista. Compreende-se o fascínio que o dispositivo exerce sobre o cineasta, mas talvez esse interesse não seja compartilhado pelo público.

É interessante saber que duas mulheres já conseguiram se formar no curso de pára-quedistas, desafiando o machismo dominante na área. Mas o que parecia ser uma boa idéia não obtém o rendimento esperado: o diretor passa filmes de guerra para os soldados e lhes pede comentários. Assim, assistem a clássicos como A Grande Ilusão, de Jean Renoir, e Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola, entre outros. Seria uma maneira de checar a auto-imagem dos entrevistados, quando “se vêem” na tela em peças de ficção, mas os comentários que surgem não parecem dos mais estimulantes.

Ainda assim, Brigada Pára-Quedista tem muitos pontos positivos. Desvela um pedaço da intimidade da caserna, o que não é simples de fazer. Ao mesmo tempo, o excesso de respeito com que o faz talvez seja o limite mais evidente do projeto. Ok, simpatia pelos personagens pode ser um estímulo para o documentarista. Mas o excesso de empatia talvez o impeça de ir além de certo limite. Nesse sentido, o último plano do filme, belo plano aliás, de um soldado armado, na contraluz, filmado de costas, como a nos proteger de alguma ameaça ou invasor, parece mais do que significativo.

(Caderno 2, 19/9/08)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.