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Um refresco: a música de Lanny Gordin

Luiz Zanin Oricchio

14 Maio 2007 | 19h44

Para os leitores queixosos (com razão) de que ando falando demais em filmes violentos, proponho um oásis – ouvir o CD Lanny Duos, da gravadora Barravento. Encomendei-o pela internet tão logo soube da sua existência. Aliás, voltar a ouvir falar no nome de Lanny Gordin foi, para mim, um choque e uma grata surpresa. No final dos anos 60, ou começo dos 70, eu gostava muito de circular pela noite, para ouvir música. Naquele tempo, em São Paulo, havia muitas casas que se dedicavam à boa música instrumental, ao vivo. Uma delas era a boate Stardust, que ficava na praça Roosevelt e pertencia ao pai de Lanny, um russo. Ia lá, com amigos, e, tesos como são os estudantes, ficávamos fazendo hora com um único e solitário uísque na mão, pressionados pelo garçom. O próprio Lanny, que havia nascido em Xangai, tocava guitarra no Stardust, às vezes em companhia de monstros sagrados como Hermeto Pascoal.

A coisa já fazia parte do folclore da casa e era conhecida dos freqüentadores: Lanny e os amigos se entusiasmavam e começavam a tocar no último volume, inviabilizando as conversas dos clientes. O pai de Lanny atendia às reclamações e mandava baixar o som e eles assim o faziam. Mas, aos pouquinhos, iam mexendo nos botões do amplificador e logo o som estava estourando os ouvidos de quem estivesse no minúsculo recinto. Música era para ser ouvida, oras, não para servir como fundo sonoro de conversa fiada. Foi lá na boate que Lanny foi descoberto pela turma da Tropicália e o maestro Rogério Duprat chegou a dizer que ele era o melhor guitarrista do Brasil. Participou de inúmeras gravações, com Caetano, Gal Costa, Gil, Jards Macalé. Depois sumiu, ou, pelo menos, nunca mais ouvi falar dele. Disseram que tinha pirado, que tinha comprado um bilhete só de ida numa dessas viagens da vida.

Agora ressurge, aos 55 anos. A guitarra está lá, intacta, aquela assinatura musical moderna, que dialoga o suíngue brasileiro tanto com o jazz como com a música erudita contemporânea. Lanny acompanha os intérpretes por faixas que vão de O Homem que Matou o Homem que Matou o Homem Mau (Jorge Ben Jor), a Dindi, de Tom e Vinícius. Passa por canções de Caetano (Enquanto seu Lobo não Vem), Gilberto Gil (Abra o Olho) e Jards Macalé (Let’s Play That). Entre os intérpretes, Gil e Caetano, Gal, Adriana Calcanhoto, e Fernanda Takai, num surpreendente Mucuripe. A única faixa solo é Corcovado, também de Tom. Aqui, a guitarra de Lanny relê o clássico e mostra que uma das maneiras de interpretar uma música é expandir as suas possibilidades sonoras.

Escutei o CD várias vezes. Tem me feito um bem danado. Recomendo.