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Um Quarto em Roma

Luiz Zanin Oricchio

27 de novembro de 2010 | 00h34

Duas moças, uma espanhola, Alba (Elena Anaya), outra russa, Natasha (Natasha Yarovenko), se conhecem num bar em Roma e, meio embrigadas, resolvem terminar a noite no hotel de uma delas. É assim o início, meio e fim deste Um Quarto em Roma, do espanhol Julio Medem, o mesmo de Os Amantes do Círculo Polar.

Das duas garotas, sabe-se que uma é lésbica e outra está de casamento marcado com um rapaz em seu país. E é só. As duas vão passar a noite se descobrindo – em mais de um sentido do termo. A proposta de Medem, parece, é explorar meandros da sexualidade feminina, com bom gosto mas sem disfarces e eufemismos. A verdade é que dá ao encontro das duas uma aura romântica, diáfana que, pouco a pouco, termina por diluiar a experiência que vivem.

Se as primeiras cenas parecem cálidas, a sua repetição vai tornando-as banais. E, à força da repetição, enfadonhas. É como se dois corpos jovens e belos, pelo excesso de exposição, acabassem por se despir de todo caráter erótico que poderiam ter no início. Além disso, no intervalo entre os, digamos, embates entre as duas, inserem-se alusões culturais que parecem francamente deslocadas. O filme encaminha-se, pouco a pouco, mas de maneira inexorável, a um artificialismo sem recurso.

Medem é cineasta de talento. No início da carreira fazia filmes como La Ardilla Roja (O Esquilo Vermelho) e Tierra (Terra) que, apesar do seu hermetismo, faziam adivinhar uma visão de mundo invulgar por parte do cineasta. Depois mudou o rumo em direção a um cinema de melhor assimilação popular e, com Os Amantes do Círculo Polar, teve seu melhor momento. Mesmo assim, uma certa preocupação intelectual, daquele tipo que procura personagens para encarnar ideias prévias, esfriava as emoções de um filme que poderia ter alçado voo maior se pudesse fluir sem tanto controle. Ainda assim, um belo fime.

Com Um Quarto em Roma, Medem parece fazer seu pior trabalho. O cerebralismo vazio parece se unir a um exibicionismo sexual fashion sem qualquer consequência. Não conseguimos enxergar humanidade naquelas duas belas moças que se entregam ao prazer de maneira aeróbica, tendo por testemunha as quatro paredes da stanza romana e umas poucas vistas para a Cidade Eterna através do balcão, onde de vez em quando repousam. Vazio, mas não de maneira crítica mas porque foi pensado no vácuo e sem qualquer aprofundamento nos sentimentos das personagens.

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