Um novo perfil do Imperador
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Um novo perfil do Imperador

Luiz Zanin Oricchio

10 de julho de 2012 | 20h49

 

Aos 83 anos, o cineasta Nelson Pereira dos Santos ainda nem lançou seu segundo filme sobre Antonio Carlos Jobim – A Luz do Tom, previsto para agosto – e já tem projeto engatilhado para 2013. Nada mais nada menos que uma cinebiografia, ficcional daquele que, para muitos, foi o mais iluminado estadista brasileiro, Dom Pedro II.

Dom Pedro de Alcântara que, ao longo de quase 50 anos de reinado, manteve a unidade do país de dimensões continentais, travou uma guerra de cinco anos com o Paraguai e conseguiu conduzir a Abolição da escravatura. O filme baseia-se no livro escrito por José Murilo de Carvalho, membro, como Nelson, da Academia Brasileira de Letras. Monarquista, Carvalho escreveu um livro elogioso, mas não encomiástico. E foi a própria leitura do texto de estilo preciso e elegante, que levou Nelson a propor ao colega de fardão transpô-lo para o cinema.

Livro.

“O livro do Murilo tem uma estrutura muito interessante”, diz o cineasta, em conversa com o Estado. “Ao invés de fazer uma cronologia de forma tradicional, ele divide a vida de Dom Pedro em pequenos capítulos temáticos que, aí sim, exibem uma cronologia interna.”

A sedução pelo formato pouco usual entre historiadores no entanto levou Nelson Pereira a buscar outras soluções de roteiro. “Imagino, para abrir o filme, a seguinte situação: Dia 15 de novembro de 1889, o imperador Dom Pedro II e a família encontram-se aprisionados no Paço Imperial, atual praça XV, pelos militares que estão proclamando a República no Brasil. Nesse momento, dois tipos de pensamento emergem em sua cabeça: o primeiro, a longa luta travada para abolir a escravidão no Brasil; a segunda volta-se para certa senhora baiana e mulata”, diz, brincando.

Paixão.

De fato, se pudéssemos adivinhar o que se passaria pela cabeça de Pedro ao ver-se destituído do trono, talvez fossem esses mesmo os pensamentos dominantes. A luta para extirpar a chaga da escravidão, e que não foi apenas de Dom Pedro, mas de todos os abolicionistas, e a imagem dessa mulher onipresente em sua vida afetiva – a condessa de Barral. A partir desses dois pensamentos convergentes, Nelson pretende reconstruir a trajetória de Pedro de Alcântara, que assumiu o trono brasileiro aos 15 anos de idade e reinou por 49 anos, três meses e 22 dias.

O relacionamento com a condessa de Barral foi quase tão longo quanto o reinado de Dom Pedro (quanto ao tempo de governo, ele seria apenas superado pela rainha Vitória, da Inglaterra, que ficou no trono por 64 anos). Eles se conheceram em 1856, quando o imperador tinha 31 anos e ela, quase 40. Chamava-se Luísa Margarida Portugal de Barros e era filha de Domingos Borges de Barros, visconde de Pedra Branca. Em comentário que hoje seria tachado de racista, José Bonifácio chamava Domingos de visconde de Pedra Parda, o que justifica o comentário de Nelson Pereira sobre a etnia da condessa de Barral. O nome e título ela recebera ao se casar com Eugène de Barral, filho do conde de Barral.

“A irmã indicou essa condessa para ser preceptora dos filhos do Pedro. Ela veio para o Brasil e assumiu a Isabel e a Leopoldina. Professora das duas filhas do Pedro II”, diz Nelson. Não era raro que o monarca acompanhasse as lições que a preceptora passava às princesas. E assim o caso nasceu.

Nelson lembra, rindo, que Dom Pedro não era muito feliz no casamento. “O casamento dele com uma princesa napolitana, Teresa Cristina, que ele conheceu por retrato, era bonita, ele foi ao cais receber, e ela não era tão bonita assim…e claudicava. O Zé Murilo conta tudo isso elegantemente”.

De fato, os historiadores registram que Dom Pedro ficou meio decepcionado com a noiva. Mas logo lhe explicaram que casamentos entre casas reais eram fatos políticos e não assuntos de coração, ou de libido. E assim a vida seguiu. Com o tempo, Pedro chegou a desenvolver grande amizade com Teresa Cristiana. Quando ela morreu, já em idade avançada, ele ficou desolado.

Mas paixão mesmo era pela condessa de Barral. Em seu livro, depois de enumerar outros casos amorosos de Dom Pedro, fora do casamento, Murilo descreve: “A paixão por Barral, no entanto, foi diferente, ultrapassou a atração física, foi eterna, sem deixar de ser chama”. A prova está na extensa correspondência entre os dois que, mesmo expurgada das passagens mais íntimas, revela a intensidade dessa chama.

Guerra.

Mais árdua foi a campanha do Paraguai, que Dom Pedro teve de enfrentar por cinco anos. “Ele estava empenhado em acabar com a escravidão. Mas aí no meio tem a Guerra do Paraguai e atrasa o processo porque ele tem de fechar com a extrema direita para continuar a guerra. Quando acaba a guerra, ele acelera o processo abolicionista”, diz Nelson. “Eles haviam pensado em acabar com a escravidão em três etapas; primeiro, o ventre livre, depois a libertação por idade e por fim a abolição completa. Era para fazer isso em 10 anos e levou 50 por causa dos interesses em jogo”.

Na narrativa de José Murilo de Carvalho, Dom Pedro II comporta-se de maneira obstinada na luta contra Solano López. Ele, que por temperamento e formação era contra a guerra, empenha toda a sua energia no combate. Vai em pessoa ao front e mobiliza a nação brasileira. Quando não querem deixá-lo se expor no campo de batalha, ameaça renunciar e transformar-se no primeiro “voluntário da pátria”. Surfa em popularidade na onda de nacionalismo que acompanha qualquer guerra.

Mas, depois da vitória é já um monarca enfraquecido, que enfrenta divisões internas e não mostra grande apetite em manter-se no poder. Nesse sentido, é uma figura ambígua e, dentro dessa ambiguidade, mostra grandeza. Diz que se o país não o quer como imperador, poderá trabalhar melhor como professor. Afirma também que se sentiria melhor como presidente da República do que como imperador. Constrói a imagem paradoxal de um monarca republicano. Quando a Abolição é decretada, está na Europa, em mais uma viagem de estudo e exploração.

Imagem.

O que ficou no final foi a imagem do patriarca bondoso e sábio, de barbas brancas, homem de cultura e afável. No entanto, quando deposto, não houve qualquer movimento popular para apoiá-lo. Morreu em 1891, no exílio, em Paris. Sua morte teve grande repercussão internacional. “O Pedrinho era evoluído, liberal, do liberalismo europeu, de mente aberta. Criou até uma colônia anarquista no Brasil”, diz Nelson, referindo-se à Colônia Cecília, no Paraná, retratada num filme de Jean-Louis Comolli.

O fato é que, destituído e morto no exílio, Dom Pedro começou a ser reabilitado, de maneira oficial, apenas em 1922, no centenário da Independência. O decreto de banimento foi revogado e os restos mortais puderam ser repatriados. Estátuas surgiram e sua efígie de barbas brancas, ar sábio e bondoso frequentaram os livros escolares e a imaginação histórica dos brasileiros. Poliglota, justo, “republicano” apesar da coroa, cultor das artes e das ciências, honesto e defensor da liberdade de imprensa, mesmo quando por ela criticado e ridicularizado – espanta que, a esta altura do campeonato, o cinema se interesse por ele?

 

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