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Um Homem Sério

Luiz Zanin Oricchio

23 Fevereiro 2010 | 16h27

Um Homem Sério, dos irmãos Coen, começa com um prólogo. Uma história judaica, falada em iídiche e ambientada na Polônia. A fábula fala de mortos-vivos e também encerra uma sutil reflexão sobre o bem e o mal. Encerrado o prólogo, há um salto para 1967, na comunidade judaica em Minneapolis onde vive Larry (Michael Stuhlbarg), um professor de física, junto com sua família.

Há um traço, digamos, intelectual, que imanta essa história de tom satírico: qual o papel do acaso e da necessidade na vida humana? Problema que se reflete em outro, de natureza ética: qual o papel do livre-arbítrio no embate entre o bem e o mal?

Essas questões aparecem sob a forma de alternativas apresentadas ao protagonista. De súbito, ele se dá conta de que a mulher vai abandoná-lo por outra pessoa – o tal “homem sério” do título. Como reagir? Por outro lado, um aluno coreano, que tirou nota baixa, tenta suborná-lo com um envelope cheio de dólares. Acontece que Larry, nessa ocasião, estará particularmente necessitado de dinheiro. O que fazer? Talvez consultar rabinos, que seriam depositários de uma sabedoria milenar, pronta para ser adaptada às circunstâncias atuais. O que eles diriam?

A história é toda estruturada dessa maneira – um ir e vir entre a teoria e a prática. Larry explica ao coreano que o conhecimento da física, sem a matemática, de nada vale. Porque a matemática é que dá a exatidão necessária ao comportamento das coisas. Figuras e analogias são apenas usadas para fins didáticos – a verdade está nas equações. Mas também as equações podem levar a um mundo probabilístico, com o da mecânica quântica. Ou à incerteza, como está no princípio de Heisenberg, que leva esse nome.

O cérebro de Larry ferve. Como se comportar num mundo humano em que o menor dos atos parece destinado a ser desmentido por outros? Tudo desafina. A começar pela mulher que irá abandoná-lo, passando pelo irmão desempregado que dorme no sofá da sala e ocupa o banheiro em tempo integral. E há os filhos. O menino que fuma maconha e a garota que rouba pequenas quantias e só pensa em fazer uma cirurgia no nariz.

Talvez seja o filme mais pessoal dos Coen, que, judeus, fazem essa imersão satírica na comunidade que não fica a dever, em tom humorístico e agudeza de percepção, às sacadas de Woody Allen. Também como Allen, os Coen parecem sempre buscar, entre risos e ironias, algum sentido para o caos aparente em que vivemos. Nesse diálogo com a religião e com os rituais de consolação da sociedade, pouca coisa fica em pé. Resta mais um exercício brilhante e um filme francamente divertido. Para rir e pensar.

(Caderno 2, 20/2/10)