Um Homem Fiel
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Um Homem Fiel

Em seu segundo longa como diretor, Louis Garrel também interpreta o protagonista Abel em suas contraditórias relações com as mulheres

Luiz Zanin Oricchio

04 de julho de 2019 | 12h10

 

O Homem Fiel do título é Louis Garrel, diretor e intérprete do longa que estreia hoje. 

Abel (Garrel) vive com Marianne (Laetitia Casta), mas ela avisa que ele deve fazer as malas e deixar a casa, pois está grávida do seu (dele) melhor amigo. Anos depois esse amigo morre e Abel reencontra-se com Marianne no enterro. Retomam a relação. Abel tenta se relacionar bem com o filho do finado e Marianne, mas o menino, Joseph, é meio refratário. A tantas, avisa o padrasto para tomar cuidado com Marianne, pois ela teria envenenado seu pai. Entra em cena outra figura, Eva (Lilly Rose Depp), filha do homem que morreu, e que ama Abel desde a infância. 

Bem, eis aí um imbróglio amoroso-familiar tipicamente francês, ou melhor, do cinema francês. Louis Garrel já foi comparado a Jean-Pierre Léaud, ator-emblema da nouvelle vague e alter ego de François Truffaut em vários dos seus filmes. Louis é filho de Philippe Garrel, um “nouvelle-vaguista” tardio, e atuou em vários filmes do pai. Daí não ser surpresa a atmosfera nouvelle vague de Um Homem Fiel, com suas evocações bastante explícitas a Claude Chabrol e a Eric Rohmer. E, claro, a Hitchcock, herói da politique des auteurs. O roteiro é do grande Jean-Claude Carrière, autor do script de vários filmes de Luis Buñuel, em sua fase francesa. 

A trama é bastante engenhosa e a administração do “clima”, eficaz, envolvente. A câmera mexe-se pouco, deixando lugar à fluidez de uma trama que, embora amorosamente enrolada, no fundo é simples. Tem-se a impressão de um thriller amoroso, mas com repercussões criminosas (a não ser que tudo não passe de fantasia do garoto Joseph, mas não parece assim). E há o aspecto “conto moral”, remetendo a Rohmer, que fez uma série deles. 

Nesse conto moral, discute-se a posição do homem diante da mulher. Não de uma mulher qualquer, atemporal, mas da mulher atual, que se reposicionou nas relações de poder em relação ao homem. E o homem, nesse caso, é Abel, personagem em aparência de todo passivo. Sem qualquer discussão, ele vai embora quando Marianne o manda ir, volta quando ela o chama. E se vai novamente quando, a conselho de Marianne, envolve-se com outra. Um joguete? Sim, mas fantoche particular, aquele tipo de indivíduo que se deixa levar e tira força de sua aparente frouxidão, um passivo-agressivo, na linguagem de hoje. Tudo é muito ambíguo. 

Até o terço final, temos a sensação de estar diante de um grande filme. Mas, então, a imaginação parece que entra em marcha lenta e começa a rodar um pouco em falso. Não muito, diga-se. Mas perde ritmo. No começo, tudo era muito inusitado e imprevisível, mas então começamos a perceber o mecanismo e a direção a que leva a história. Perdemos um pouco de embalo e da surpresa. A qualidade cinematográfica não cai nunca. Mas, quer saber? Ao escrever sobre o filme, fiquei com vontade de revê-lo, o que é um ótimo sinal. 

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