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Um galante rei da Boca

Luiz Zanin Oricchio

01 de agosto de 2012 | 15h55

 

Antonio Polo Galante (1934), o mitológico produtor, já foi até personagem de filme – Galante – o Rei da Boca (2003), de Alessandro Gamo e Luis Rocha Melo. É agora homenageado pela mostra A Boca da Boca, que começa hoje, no MIS, com a apresentação às 18h15 de trailers de várias de suas produções e, às 18h30, com o longa A Mulher de Todos, de Rogério Sganzerla. Após a sessão, haverá debate entre o homenageado e o crítico Inácio Araújo, com lançamento do livro O Bilhete Azul, uma biografia de Galante escrita por sua mulher, Manuela, falecida há alguns meses. O produtor deseja transformá-la em filme.

Na retrospectiva, estão programados alguns dos seus filmes mais representativos, como Trilogia do Terror (Luis Sérgio Person, Ozualdo Candeias e José Mojica Marins), A Ilha dos Prazeres Proibidos (Carlos Reichenbach), Convite ao Prazer (Walter Hugo Khouri), O Cangaceiro Sanguinário (Oswaldo de Oliveira), Kung Fu entre as Bonecas (Adriano Stuart), entre outros.

A retrospectiva permite recuperar, e talvez reavaliar, a produção da chamada Boca do Lixo, na qual Galante foi um dos personagens centrais. De formação essencialmente prática,era um produtor com faro de mercado. Trabalhava à margem do financiamento oficial da antiga Embrafilme e, ao contrário do que ocorre hoje, dependia da resposta do público para viabilizar suas empreitadas seguintes. Para tanto, apostava numa paleta diversificada de gêneros: terror, comédia, aventuras de cangaceiros etc. O predomínio, claro, era do filão erótico, naquilo que se convencionou chamar de pornochanchada. O atrativo eram as belas atrizes, nuas, que assim firmaram seu nome no imaginário masculino da época. Quatro dessas beldades remanescentes debatem na terça, dia 7, sob a mediação do crítico Gabriel Carneiro: Helena Ramos, Neide Ribeiro, Zilda Mayo e Aldine Müller. Nomes muito familiares para brasileiros já eram adultos nos anos 70.

Com essas atrizes, Galante queria fazer dinheiro. Mas se o diretor fosse inteligente, seria capaz de convencê-lo a apostar em projetos improváveis. É assim que levam a assinatura do produtor filmes tão transgressores como A Ilha dos Prazeres Proibidos ou A Mulher de Todos, primeiro filme de Sganzerla depois da ruptura formal de O Bandido da Luz Vermelha. Mas o fato é que a imensa maioria desses filmes era muito ruim. Ajudaram a criar um clichê. A fase da pornochanchada é ainda responsável pelo difundido preconceito da classe média sobre o cinema brasileiro como “apelativo e cheio de palavrões”.

Também o meio intelectual via com muita desconfiança esse tipo de filme. Machistas, alienados, exploradores dos baixos instintos do público, pouco dignos de consideração ou análise. A exceção era, justamente, o maior dos nossos críticos, Paulo Emilio Salles Gomes, para o qual mesmo o pior dos filmes brasileiros diria alguma coisa importante sobre a nossa condição. Mas o que permaneceu na tradição da crítica foi o menosprezo por esse tipo de produção, da qual Galante é talvez o nome principal. Como se poderia prever, à sombra desse desprezo nasceu uma atitude contrária, vinda de outra facção crítica – aquela que, por reação, supervaloriza essas produções e vê nelas aspectos com os quais sequer sonhavam seus produtores. Talvez a retrospectiva dedicada a Galante reponha em cena essas visões antagônicas. Mas a tendência maior é a celebração acrítica.

 

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