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Um filme perdido entre a arte e a política

Luiz Zanin Oricchio

18 Fevereiro 2008 | 20h28

É curioso que, em Berlim, Tropa de Elite tenha reproduzido a mesma divisão entre a crítica já observada no Brasil. O influente Jay Weissberg, da Variety, não hesitou em classificar o filme como celebração da violência, a serviço do recrutamento de brutamontes fascistas. Já o Screen Daily publicou uma crítica favorável, e o Hollywood Repórter viu qualidades e defeitos no filme. O tradicional Le Monde, detonou. No exterior, como no Brasil, prestou-se mais atenção às possíveis implicações ideológicas do filme do que dos seus méritos, ou deméritos, cinematográficos.

Apesar de toda essa controvérsia, ou talvez até mesmo por causa dela, Tropa de Elite abriu seu caminho até o grande público, no Brasil, e entre os jurados, em Berlim. Fez 2,4 milhões e foi o mais visto no País em 2007. Fora a pirataria, porque esta é um capítulo à parte. Como se lembra, antes mesmo de ser lançado nos cinemas, Tropa de Elite era encontrado em qualquer banquinha de camelô no Rio de Janeiro. E, logo em seguida, também em São Paulo e em outras partes. Tornou-se fenômeno desse “mercado paralelo” e não faltaram vozes para dizer que se tratava de jogada de marketing dos produtores. A dimensão desse “público oculto” é impossível de ser aferida com exatidão, mas estimativas indicam que, pelo menos, outras 10 milhões de pessoas viram as peripécias do Capitão Nascimento (Wagner Moura) em cópias-piratas. Fica o fato de que poucas vezes, no passado recente, uma produção nacional despertou tanto interesse junto ao público quanto esse filme polêmico.

A hora é boa para voltarmos a discutir as razões desse sucesso. Claro, alguns motivos são óbvios. Tropa de Elite põe em cena um personagem que trata bandidos com dureza e isso sensibiliza uma população assustada, que elege o tema da falta de segurança urbana como o mais importante e urgente. Mobiliza sentimentos de revanche.

Hoje em dia, o “discurso sociológico”, aquele que procura causas mais profundas e gerais – como má distribuição de renda, falta de perspectivas, etc, – caiu de moda. A população entende que a polícia está em desvantagem diante dos marginais e o filme apresenta um personagem principal, e vários outros secundários, “que fazem o que tem de ser feito”, sem maiores problemas de consciência. É catártico, nesse sentido. Alivia uma tensão social e psicológica de quem se sente sitiado em sua própria cidade.

Há outro aspecto, também de conjuntura. Num momento histórico em que a corrupção política domina as manchetes por anos seguidos, parece consolador ver na tela um personagem que pode ter seus defeitos, mas não se corrompe de modo nenhum. Nem ele e nem qualquer membro da sua corporação. O Bope, o batalhão de elite da PM, figura no filme como uma espécie de heróica exceção diante de um suposto descalabro nacional.

Tropa de Elite causou esse efeito reparador na população que foi assisti-lo. E, entre críticos, especialistas e formadores de opinião, provocou alguma cisões. Alguns fecharam com o diretor, que sempre sustentou ter feito um retrato honesto da situação caótica vivida nos morros do Rio de Janeiro. Outros apostaram que a heroicização do Bope significava um manifesto em prol das soluções violentas para um problema que, no fundo, seria social. O pano de fundo (mas bem de fundo mesmo) dessa discussão expressava o conflito de óticas entre direita e esquerda, categorias do espectro político já tidas como mortas e enterradas, mas que sempre ressurgem, como vindas do além, a cada controvérsia nacional.

Talvez seja hora de deslocar um pouco a discussão e reconhecer que filmes como Tropa de Elite, Cidade de Deus e Meu Nome não É Johnny fazem sucesso não apenas por suas temáticas polêmicas, mas por suas qualidades como cinema, e pela capacidade de atingir um público amplo. São filmes que trabalham com uma linguagem jovem e popular, têm ritmo, articulação, personagens carismáticos, agilidade.

Outro ponto para reflexão é que Tropa de Elite, apesar da controvérsia, abriu seu caminho em um júri presidido por ninguém menos que Constantin Costa-Gavras, autor de filmes com Z, Estado de Sítio e Missing. Diretor engajado, de “esquerda”, e muitas vezes criticado porque seus filmes seriam progressistas do ponto de vista político e conservadores em termos de linguagem cinematográfica. Costa-Gavras jamais se importou com essa objeção. Disse que mesmo as tais “mensagens políticas” têm de chegar aos seus destinatários. E filme que não chega ao público é um filme morto.

Apenas para comparar: os filmes do Cinema Novo tratavam as questões sociais e pessoais de uma forma mais distanciada, que pediam uma atitude de reflexão aos espectadores. São tempos diferentes. Estes, contemporâneos, jogam o público num torvelinho de emoções. Reage-se mais com o coração do que com o cérebro e essa é a atitude dominante da contemporaneidade. Esses sucessos de hoje “pegam”, até mesmo por seus bordões. Quem nunca observou, em seu ambiente de trabalho, a repetição de frases como “Dadinho é o ca…, meu nome agora é Zé Pequeno”, ou “Pede pra sair 02”?

Noel Rosa disse certa vez que só se considerou um compositor de sucesso quando uma noite, voltando para casa, ouviu um bêbado assobiar o samba Com Que Roupa. Obra popular é assim. Tem de entrar na fala cotidiana das pessoas, ou no assobio do bêbado.

(Caderno 2, 18/2/08)