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Um filme de fôlego

Luiz Zanin Oricchio

25 de abril de 2008 | 20h24

Não se pode acusar Kim Ki-duk de falta de originalidade. Em A Ilha, os amantes se entregam a estranhos (e violentos) prazeres, com direito ao uso de anzóis de pesca. Em Casa Vazia, um rapaz aproveita as férias dos donos para se esgueirar para dentro de suas residências, mas nada rouba e ainda realiza pequenos consertos. Em Fôlego, o que há é o amor terminal entre uma escultora e um sentenciado à morte que tenta, sem sucesso, suicidar-se na prisão.

Kim Ki-duk trabalha com uma seqüência de ambientes frios e impessoais. A prisão, de um lado, onde Jang Jin (Chang Chen) espera a morte em companhia de outros detentos. De outro, o apartamento onde Yeon (Jia Park) vive com a filha e um marido com quem não fala é aquele exemplo de limpeza e assepsia da arquitetura modernosa. Nada tem de humanidade. É na prisão, e através da sua imaginação, que Yeon inventará cores e alegria para o condenado.

Se os assuntos de partida de Kim Ki-duk se diferenciam, os temas que os ligam parecem muito convergentes. Interessa-o a solidão da condição moderna. Os seres isolados que, no entanto, tendem a se aproximar de maneira desesperada, numa união que muitas vezes roça a morte. Amor e morte – essas contingências entrelaçadas e que todo artista deve levar em consideração como vetores obrigatórios de uma obra digna desse nome.

A impressão que fica dos personagens de Kim Ki-duk é a de seres sem qualquer psicologia. O diretor não se preocupa em montar uma rede de causalidade para o comportamento deles. Isso não quer dizer que não sejam compreensíveis, ou que façam coisas absurdas. Não. A motivação de Yeon pode ser inferida, pois o marido tem outra, e sua vida parece vazia. Mas há sempre um grau de arbitrariedade na maneira como esses personagens buscam encaminhar seus conflitos. Essa fragmentação de comportamentos antigamente se chamava alienação. Como – dizem – essa palavra entrou em desuso, seria preciso encontrar outra… para dizer a mesma coisa que a anterior definia à perfeição.

Esses estudos do mal-estar no mundo são feitos de maneira rigorosa, oriental em seu despojamento. De um lado, há o paroxismo do impulso sexual ou amoroso. De outro, os enquadramentos certeiros, a exatidão com que tudo é dirigido e contido. Existe muito calor por baixo dessa aparente frieza.

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