Um Fellini redivivo para fechar a Mostra
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Um Fellini redivivo para fechar a Mostra

Luiz Zanin Oricchio

26 Setembro 2013 | 17h05

 

Que Estranho Chamar-se Federico, homenagem de Ettore Scola a Federico Fellini, fecha a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo dia 31 de outubro, dia exato em que se completam 20 anos de morte do diretor de Amarcord e A Doce Vida.

Quem confirma a vinda do filme que mais comoveu o público do Festival de Veneza é a diretora da Mostra, Renata Almeida, que, presente em Veneza à sessão histórica de Como É Estranho Chamar-se Federico – Scola conta Fellini, saiu do cinema diretamente atrás da autorização para trazer ao festival paulistano essa homenagem de Ettore Scola a seu amigo Fellini. Dia 31, coincidentemente (ou não?), data exata do 20 aniversário da morte do grande mestre italiano de Amarcord, A Doce Vida, 8 1/2 e tantas outras obras-primas, o público paulistano poderá ver esse filme tocante e inspirado. E, talvez, na presença de Scola, cuja vinda a São Paulo ainda está sendo negociada. O diretor tem 82 anos.

Em Veneza, as reações ao filme de Scola foram, até certo ponto, surpreendentes. Na sessão para a imprensa até as desconfortáveis poltronas da grande sala Darsena (1300 lugares) choravam ao final. A sessão de gala, no encerramento do festival, foi uma emocionante catarse italiana. Até o presidente da Itália, Giorgio Napolitano, compareceu. E chorou à vontade, como todo mundo, com exceção do diretor.

Com seu jeitão rabugento, Scola se disse incomodado com tantas e tamanhas reações emocionais. “Não fiz o filme para que chorassem, fiz para homenagear um amigo querido”, resmungou na entrevista aos jornalistas. Quando lhe disseram que não eram lágrimas de tristeza e sim de emoção estética, não se deu por vencido. “Federico era um homem da alegria, e, depois, não se lamenta uma vida tão completa como a dele. Lamenta-se quem viveu em vão ou não conseguiu realizar os seus sonhos, o que não foi de jeito nenhum o caso dele”.

Em todo caso, qualquer que seja a origem das lágrimas, o fato é que Scola conta Fellini é de fato um filme tocante. Felliniano em sua essência, conta uma história, a do diretor, mas não o faz em linha reta e nem em modo realista. Em primeiro lugar, é uma mistura de ficção e documentário com sequências encenadas dos dois diretores quando jovens. Em épocas distintas, eles trabalharam no mesmo jornal satírico Marc’Aurelio, em Roma. Fellini vindo de Rimini e Scola, de Trevico, na província de Avellino. Ambos com o sonho da cidade grande, de vencer e superar a condição interiorana. O jornalismo era tido como primeira opção, mas o cinema aparecia como meta, talvez àquela altura julgada um tanto improvável.

As encenações mesclam-se a cenas documentais de Fellini, gravações da voz, trechos de filmes de ambos, cerimônias de premiação e outros registros. No todo é um baú de recordações preciosas, posto a serviço de um cineasta que, entre outras características, era também um artista da memória. Deve-se dizer também que Scola conta Fellini é um projeto de família. Dois dos netos de Scola interpretam os dois diretores quando jovens. O roteiro foi escrito pelo próprio Ettore Scola e suas filhas Paola e Silvia.

A par disso, a originalidade de Scola conta Fellini não reside tanto no material empregado quanto no arranjo que dele se faz. Não por acaso, Scola fala em filme “cubista”. Uma obra em perspectiva múltipla, que varia e se altera segundo o ângulo de quem a vê. Temos, então, um Fellini decomposto em suas diversas facetas – o amigo leal, o satírico, o mentiroso burlesco, o genial inventor de formas e ideias. Aquele que zombava das honrarias mas mostrava-se sensível a elas. O cultor das formas femininas perfeitas, porém atento às modalidade mais, digamos, expressionistas das filhas de Eva, como a “tabacaia”de Amarcord, ou a Saraghina, lembrança querida da infância e da iniciação sexual.

O leitor pode espantar-se com o título completo, Que Estranho Chamar-se Federico. A explicação está nos versos que abrem o filme, ditos em espanhol e não em italiano:”Entre los juncos y la baja tarde, qué raro que me llame Federico.” São linhas de outro Federico, o grande García Lorca, fuzilado pelos fascistas da Espanha. Há parentesco entre eles, além do prenome. Federico Fellini trabalha com sátira na revista Marc’Aurelio, justamente durante o período de Benito Mussolini. Embora não sofra o destino trágico do xará espanhol, Fellini experimenta a censura e o autoritarismo do Duce. Essas lembranças espalham-se por seus filmes, e se concentram em Amarcord, no qual Mussolini é ironizado como poucas vezes um ditador o foi.

Scola conhecerá Fellini em 1947, já no pós-guerra, quando tinha 16 anos. Apesar da diferença de 11 anos, nasce a amizade entre os dois. Scola é um menino, Fellini é já bastante conhecido em seu meio. A relação cimenta-se em passeios de carro na noite romana, quando conversavam com prostitutas, bêbados, artistas e mendigos. A ligação estreita-se ao longo dos anos, agora através do cinema, que os aproxima a ponto de Scola conseguir, a duras penas, convencer Fellini a participar de Nós que Nos Amávamos Tanto, seu maravilhoso filme de 1974.

O desfecho de Que Estranho Chamar-se Federico — uma epifania que não deve ser revelada e talvez a maior responsável pelo mar de lágrimas do público — mostra como e porquê 20 anos depois de sua morte Fellini continua mais vivo do que nunca.