Um fecho para a trilogia do cárcere
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Um fecho para a trilogia do cárcere

Luiz Zanin Oricchio

14 de junho de 2013 | 10h52

 

CURITIBA – Com A Gente, longa-metragem que será lançado apenas em 2014, o diretor Aly Muritiba fecha a sua “trilogia do cárcere”. Os dois primeiros filmes do tríptico – dois curtas – foram sucessos absolutos e deram projeção a este ex-agente penitenciário baiano, de 37 anos, radicado em Curitiba. A Fábrica participou de 100 festivais de cinema e recebeu 62 prêmios. Com O Pátio, Aly foi um dos dois únicos representantes brasileiros no Festival de Cannes deste ano. O Estado teve acesso a uma apresentação privada do filme, destinada aos agentes penitenciários. A cópia ainda é provisória e necessita de ajustes de luz.

“A realidade carcerária é muito complexa para ser abordada em um único filme”, diz Muritiba em conversa com o Estado. “Por isso, fiz três, abordando pontos de vista diferentes. Em A Fábrica, o da família dos presos. Em O Pátio, o dos próprios detentos e, em A Gente, o dos agentes penitenciários”.

Essa temática é fruto direto da experiência profissional de Muritiba, que saiu de uma pequena cidade no interior da Bahia, foi tentar a sorte em São Paulo, estudou História na USP e acabou vindo para Curitiba apaixonado por uma paranaense com quem está casado. Entrou na carreira de agente penitenciário por acaso. “Prestei concurso, entrei e vi que era uma profissão que me permitia estudar cinema em outro período”. Trabalhou durante sete anos no sistema penitenciário paranaense, realizou o sonho de se tornar cineasta e pediu afastamento não remunerado para fazer seus filmes. Mas, para realizar A Gente, solicitou reintegração. “Não seria possível fazer esse longa-metragem sem estar presente no próprio local e convivendo com meus companheiros de trabalho”, diz.

Esses colegas estiveram na primeira sessão do filme, a mesma assistida pelo Estado. Riram e brincaram ao se verem na tela grande do Espaço Itaú de Cinema. Mas também se emocionaram ao rever situações tensas, como a do preso que grita e exige transferência tarde da noite, obviamente alterado pelo uso de drogas. Outros presos pedem medicamentos, analgésicos ou sedativos porque não conseguem dormir. Não há remédios. Nem médicos para atender a quase mil detentos empilhados em celas. Apenas uma assistente de enfermagem. “É um barril de pólvora, que o filme retrata com muita fidelidade”, comenta com o Estado o agente penitenciário Ivanney Lobo.

Sem traço de sensacionalismo, A Gente retrata sem piedade um sistema carcerário superlotado, carente de recursos e sem proposta realista de ressocialização dos detentos. Os agentes aparecem com seus nomes reais, em situações ora verídicas ora encenadas. O “ator”principal é Jefferson Walkiu que, na vida civil, é também pastor protestante. Era, na ocasião, chefe de inspetoria da equipe Alfa num presídio de São José dos Pinhais, município vizinho de Curitiba. O filme, na fronteira entre o documentário e a ficção,  deverá ser uma bomba quando lançado.

 

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