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Um estrangeiro em seu próprio país

Luiz Zanin Oricchio

10 de julho de 2008 | 22h17

Considerado um dos melhores filmes latino-americanos de todos os tempos, Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea, baseia-se no livro homônimo de Edmundo Desnoes, que nunca havia sido traduzido em português, apesar de escrito em 1965 – o filme é de 1968. Sai agora, editado pelo Memorial da América Latina, em tradução de Elen Döppenschmitt. O filme está disponível em DVD, lançado pela Video Filmes.

No texto que antecede o romance, Elen descreve a trajetória insólita de Memórias do Subdesenvolvimento. Desnoes foi o roteirista da sua própria obra na adaptação cinematográfica. Mas, como muita coisa foi acrescentada durante a filmagem em relação à obra original, o escritor resolveu modificar o texto, e acrescentou partes do roteiro ao livro. Assim, houve um movimento de dupla mão: do livro ao filme e deste ao livro. Por exemplo, a visita da personagem Elena à casa de Hemingway, nas cercanias de Havana, aparece no filme, mas não na primeira edição do romance. Foi incluída nas edições posteriores. Os contos que aparecem no final do livro (Jack e o Motorista, Acredite se Quiser, Yodor e O que Posso Fazer?) são mencionados na ação pelo protagonista do filme, Sergio (Sergio Corrieri).

E quem é esse personagem? Uma curiosa consciência crítica da Revolução Cubana, inventada pelo romancista Desnoes e assumida pelo cineasta Alea. Sergio ocupa uma posição excêntrica, que é a posição privilegiada do narrador de ficção – não está nem cá e nem lá. Não tem centro. É, tecnicamente, segundo o jargão dos revolucioários, um “burguês”.

Privilegiado, mora num apartamento enorme no bairro do Vedado, o mais nobre de Havana. Sua família deixa Cuba e vai para os Estados Unidos. Sergio fica só. Não deixa a ilha. Mas a ilha, aquele mundo, não mais lhe pertence. Está como num desvão do tempo histórico. Não pode aderir a uma revolução na qual não acredita. Não consegue adotar o sentimento da classe a que pertence, ou pertencia. Acha a revolução medíocre. Acha a burguesia cubana medíocre. Acha o país, em si, medíocre. Não tem lugar no mundo.

Desnoes adota uma narrativa em primeira pessoa. Sergio é essa consciência encapsulada, que tenta entender o que lhe acontece – e ao mundo – registrando seus pensamentos em um diário. E é assim que lemos Memórias do Subdesenvolvimento – como as páginas de um diário íntimo, escritas por um desgarrado da existência. Essa sensação de estranhamento é a que acompanha o leitor da primeira à última página. Por isso, Sergio faz uma constatação curiosa ao visitar o Museu Hemingway, na Finca Vigía, perto de Havana, onde ele morou durante alguns anos.

Ter servido de moradia ao Prêmio Nobel Hemingway é um dos orgulhos de Cuba. O escritor ali viveu, escreveu, pescou e bebeu. Tinha seu iate em Cojímar e vivia entre a Bodeguita e o Floridita, os dois bares míticos de Havana. Conta-se que gostava de conversar com os pescadores e estes ergueram uma estátua a Hemingway quando este ganhou o Nobel. Sua obra-prima, O Velho e o Mar passa-se em Cuba e baseou-se no relato de um desses velhos pescadores.

No entanto, ao visitar a velha casa do escritor, transformada em museu, Sergio constata a existência de toda uma série de objetos – troféus de caça, livros em inglês, fotos espanholas, cartazes de touradas, botas para caçar na África – para concluir: “Cuba nunca interessou Papa Hemingway”. Estava sem estar. Em Hemingway, Sergio via a si mesmo. Projetava a figura de um estrangeiro, em seu próprio país.

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