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Um cubano e seu violão

Luiz Zanin Oricchio

05 de dezembro de 2008 | 11h31

O grande Leo Brouwer está no Brasil. Leia a excelente matéria de João Luiz Sampaio com o compositor e violonista. Aqui, a continuação do texto.

Abaixo, o meu artigo sobre a relação entre Brouwer e o cinema.

O mais importante filme cubano – Memórias do Subdesenvolvimento (1968), de Tomás Gutiérrez Alea – é denso como reflexão e cheio de implicações políticas. Mas também tem ritmo, fluidez e intensidade. Muitas dessas qualidades se devem ao autor da trilha, o compositor e violonista Leo Brouwer. Aliás, o filme, que mostra a ambigüidade do personagem central (Sergio Corrieri) diante da revolução, começa com uma cena musical. Cena de candomblé cubano, a “santería”, filmada com intensidade frenética. Ela é pensada para fazer o contraponto entre as raízes afro-cubanas da cultura local e cultura europeizada (ou americanizada) das classes superiores. O personagem se dilacera entre ambas e despreza as duas. Os contrapontos musicais ajudam a conduzir o filme por essa via de mão dupla.

Não foi o único trabalho conjunto entre Alea e Brouwer. O mais importante cineasta da ilha e o seu músico mais criativo e consistente somaram seus talentos em vários outros filmes, naquela que, muito em função dos dois, foi a fase áurea do cinema cubano. Brouwer assina a trilha de um épico, Histórias da Revolução (1960), realizado logo após a conquista do poder pelos barbudos e que teve cenas na Sierra Maestra dirigidas pelo Che Guevara em pessoa. Era o filme da vitória.

Mas Brouwer estava com ele quando em 1966 Alea começou a fazer as primeiras críticas ao regime de Castro em A Morte de Um Burocrata. O filme tem por tema um dos problemas da revolução, e que viria a se agravar com o tempo, a rigidez burocrática, que criava entraves desnecessários às pessoas. O assunto é tratado com ironia e de maneira leve, no que é acompanhado pela música.

Brouwer se associou a Alea em vários outros trabalhos, ao longo da carreira do cineasta (morto em 1996), como Una Pelea Cubana contra los Demonios (1972), La Ultima Cena (1976), Los Sobrevivientes ( 1979) e Hasta Cierto Punto (1983).

Não deixou de emprestar sua criatividade musical a outros diretores cubanos. Suas trilhas estão nos créditos de alguns dos filmes considerados obras-primas da cinematografia do país, como Primera Carga al Machete (1969), de Manuel Octávio Gómez, e Lucía (1968), de Humberto Solás. Este último merece menção à parte, em especial pela morte recente de Solás, que alguns chamavam de Visconti cubano. Trabalhando muitas vezes com a suntuosidade e com o decadentismo, Solás até que mereceria esse epíteto. Mas em Lucía o que temos é a visão mais descarnada da história cubana, e fixada nos aspectos sociais, contada em três fases – no século 19, nos anos 30 e nos anos 60 -, sempre por intermédio de uma personagem chamada Lucía.

Brouwer colaborou também com outros mestres do cinema cubano, como Julio García Espinosa (no engraçado As Aventuras de Juan Quin Quin), e com o chileno Miguel Littín (em O Recurso do Método, baseado em Alejo Carpentier). Um dos seus trabalhos mais conhecidos foi em Como Água para Chocolate (1992), do mexicano Alfonso Arau, adaptação do romance de Laura Esquivel. Bem mais comercial que os outros, diga-se.

(Caderno 2, 5/12/08)

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