‘Um Crime em Comum’, a força da culpa
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‘Um Crime em Comum’, a força da culpa

Luiz Zanin Oricchio

21 de janeiro de 2021 | 12h54

Duas das estreias de hoje, Callado e Fale com as Abelhas , escrevi para o Estadão (disponíveis também no Portal). Mas gostaria de recuperar um filme argentino que estreou semana passada, o interessante Um Crime em Comum, de Francisco Márquez. 

A professora Cecília (Elisa Carricajo) mora sozinha com o filho. É apresentada como profissional exigente e cheia de consciência com seus alunos. Leciona filosofia e dá aulas sobre Louis Althusser, célebre nos anos 1960 e 1970 por sua releitura de Marx. 

Cecília tem uma ajudante em casa, Nebe (Mecha Martinez). Esta tem um filho adolescente, Kevin. 

Numa noite de chuva, Cecília é despertada por barulhos em sua porta. É Kevin, pedindo socorro. Amedrontada, ela não abre. No dia seguinte, fica sabendo que o adolescente foi assassinado pela polícia. Guarda o segredo para si. Mas a culpa a corrói. 

A culpa. Os religiosos dizem que a fé remove montanhas. Dante Alighieri, na Divina Comédia, fala do amor que move o sol e as outras estrelas. Talvez, se pensarmos não no amor terreno, mas no amor divino, uma hipótese religiosa. No entanto, o materialista Freud dizia que era a culpa e não a fé que removia montanhas. Pode ser que tenha razão, mesmo em tempo de insensibilidade para com o próximo, como o nosso. 

Sentindo-se responsável pela morte de Kevin, Cecília não terá descanso. O filme nada mais é do que o processo de desequilíbrio por ela vivido desde aquela noite fatídica. Nesse sentido, o filme dialoga com A Garota Desconhecida, dos irmãos Dardenne, com  Adèle Haenel como a médica que não atende uma imigrante fora do horário do expediente e descobre no dia seguinte que ela foi assassinada sequer se sabe seu nome.

O tratamento do longa argentino, no entanto, é um pouco diferente. Com o desequilíbrio crescente da personagem, às vezes se assemelha a um filme de terror. Sem qualquer apelação ou apelo ao sobrenatural, no entanto. Quem assiste, percebe, o tempo todo, que tudo se passa na subjetividade da personagem, abalada por uma sensação de crescente desconforto consigo mesma. 

A direção é segura. Mostra como produzir a impressão de medo sem os clichês habituais. A atuação de Eliza Carricajo é notável. Sem qualquer exagero, expressa no rosto (e também na postura corporal) a extensão do sentimento que lhe vai por dentro. 

Na Crítica da Razão Pura, Kant dizia que duas coisas lhe causavam espanto: “O céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim”. Talvez o filósofo tenha razão e não possamos, no limite, fugir a essa lei moral mesmo quando o cinismo parece anulá-la. 

É claro que também é um comentário agudo sobre as relações entre classes sociais. E entre uma intelectual de esquerda, como a protagonista, com as pessoas que a ajudam no trabalho doméstico. Surge uma Argentina fora de cartões postais e clichês, com seus bairros populares. E as fraturas sociais ficam mais que expostas pelo tema subjacente da violência policial com sua opção preferencial pelos desvalidos. 

 

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