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Um clássico (quase) perfeito

Luiz Zanin Oricchio

14 Março 2007 | 00h27

Um grande jogo é como uma pedra jogada n’água: continua a produzir ondas mesmo depois de já ter desaparecido. É o caso do clássico de domingo entre Santos e São Paulo na Vila Belmiro. Um jogo raro. Com todas as nuances de um embate entre grandes. Domínio de um no primeiro tempo, do outro no segundo. Grandes jogadas, bonitos gols, bolas na trave, lances polêmicos, erros da arbitragem que serão discutidos, não digo pelos séculos afora, mas pelo menos durante os próximos dias.

O que faz de um jogo um clássico não é apenas esse conjunto de qualidades, mas, a meu ver, o ‘pathos’, a emoção, a carga de dramaticidade que ganha. Muitos ingredientes estavam presentes na Vila para que este Santos x São Paulo alcançasse esse status de jogo especial. E racionalmente não deveria ser assim: ambos estão praticamente qualificados para as semifinais e este não é um campeonato de pontos corridos, no qual todos os jogos se equivalem em pontuação e importância.

Não. Era um tira-teima, uma espécie de aperitivo do que deverão ser as finais do Campeonato Paulista, a não ser que alguma zebra entre na pista. São os dois melhores times de São Paulo, possivelmente do Brasil. Têm, em seu comando, os dois técnicos mais competentes, Luxemburgo, um estrategista, Muricy, que sabe como nenhum outro fazer de um grupo de jogadores um conjunto competitivo. Mais: duas torcidas que se tornaram muito rivais, a partir, talvez das quartas-de-final de 2002, quando o Santos, um time de crianças que havia se qualificado em oitavo lugar, tirou do caminho o favorito São Paulo, que terminara a fase de classificação em primeiro.

Essa, a eletricidade que tomava conta da Vila. Estava na disposição de cada um daqueles jogadores em campo, que odiavam a simples idéia de perder para o adversário. Convenhamos: futebol só tem graça desse jeito. Um jogo se ganha com a alma, dizia Nelson Rodrigues, e não tenho nenhum motivo para supor que estivesse errado.

Essa vontade de ganhar, sem a qual não há espetáculo, gera subprodutos indesejáveis. Não, não se pode exigir de um campo de futebol os punhos de renda de uma recepção no Itamaraty. Mas jogos acirrados assim ficam a um fio de se transformarem em batalha física. E o futebol é, como o xadrez, a imitação de uma guerra e não a guerra em si mesma. Por isso não se deve tolerar que a dedicação dos jogadores ultrapasse a fronteira da ‘raça’ e se converta em briga de rua. Como delimitar essa fronteira? Não me parece que tenha sido atravessada domingo, embora tenha sido tocada. Houve jogo viril, e de parte a parte e não de um lado só como alegam Souza e Leandro, dois conhecidos congregados marianos.

Mas um aspecto de que não gostei mesmo foram das agressões à bandeirinha Ana Paula Oliveira. Certo, ela errou de maneira canhestra. Mas pagar esse erro tendo de ouvir milhares de pessoas gritando em coro uma palavra de quatro letras me parece um despropósito. Há um consenso na crônica de que a torcida tem direito de se manifestar como quiser, menos com agressões físicas. E as agressões simbólicas, não contam? Afinal, quando racistas europeus mostram bananas para jogadores negros estão fazendo algo semelhante ao torcedor brasileiro que insulta uma mulher porque ela se equivocou num impedimento. E o pior é que vi várias mulheres no estádio usando a mesma palavra que seus companheiros para xingar a pobre da bandeirinha. Que raio de feminismo é esse?