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Um certo público

Luiz Zanin Oricchio

27 Maio 2007 | 10h17

O público do cinema nacional é uma preocupação constante, ao menos para quem se interessa pelo assunto. Se a produção subiu e se estabilizou em patamar interessante (ano passado foram mais de 70 estréias de longas), a bilheteria parece longe de responder de maneira proporcional ao empenho da produção. Lança-se muito e os filmes são pouco vistos, com raras exceções. Costuma-se dizer, também, que o grande público só quer saber de produtos com atores globais e que, de certa forma, mimetizam a estética habitual da TV.

Tudo isso é verdade, com algumas nuances. Uma delas salta à vista quando se observa de perto o circuito e se descobre nele a presença de alguns filmes brasileiros “pequenos”, do ponto de vista da produção, e que não fazem nenhuma concessão para alcançar seu público. Pelo contrário, desconfio que atingem um determinado público justamente porque não fazem concessões. São os casos de O Cheiro do Ralo, de Heitor Dhalia, Cartola, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda, e Baixio das Bestas, de Claudio Assis. Nenhum deles é “fácil”, no sentido convencional do termo. ‘Cartola’ em nada se assemelha à cinebiografia de um compositor popular. ‘Cheiro do Ralo’ tem como protagonista um tipo repulsivo. ‘Baixio das Bestas’ fala da violência contra a mulher na Zona da Mata pernambucana. Mas é sobretudo na forma adotada por seus realizadores que esses filmes são diferentes e ousados. Existe um público para esses radicais. Basta encontrá-lo.