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Um Beijo Roubado

Luiz Zanin Oricchio

13 de abril de 2008 | 07h22

Em seu primeiro filme americano, o chinês Wong Kar-wai conserva suas características de estilo. Uma maneira sensual de filmar, cenas em câmara lenta, entrecortadas de música da melhor qualidade – ele já usou de Nat King Cole a Caetano Veloso, passando pelas guitarras dos índios Tabajaras; agora, vai de Ry Cooder, o que não é má escolha. No conteúdo, amores desencontrados e intensos.

Certo, Um Beijo Roubado não chega a ser um Felizes Juntos ou Amor à Flor da Pele, seus dois melhores filmes, pelo menos na opinião deste crítico. Nestes, a sensualidade buscada pelo diretor atingia o ápice, numa história de amor homossexual num caso, e hetero, no outro. Kar-wai é um cineasta dos sentidos. E levou essa característica ao mudar de residência cinematográfica.

O ‘par’ central é formado por Jude Law e Norah Jones, na estréia da cantora nas telas. Boa estréia, aliás. Norah é uma gracinha, como diria a Hebe, e dá à personagem um frescor dos mais interessantes. Não sabemos se é atriz (este é outro departamento, a ser testado em diferentes papéis, etc). Mas que está bem neste filme, lá isso está.

Law faz o papel do dono de um café em Nova York, um sofisticado gourmet que prepara as tais tortas de blueberry de que fala o título original. Norah é a garota melancólica que procura abrigo no café enquanto se recorda do namorado. Mas não se entrega à melancolia. Nem fica em NY. Vai à luta, viaja para Memphis, onde trabalha de garçonete. À sua maneira, Um Beijo Roubado é – também – um road movie. Acompanha o deslocamento de Elizabeth (Norah) pelo país, e em busca de si mesma.

Como a maioria dos estrangeiros que vai filmar nos Estados Unidos, Kar-wai não deixa de se deslumbrar com os grande espaços abertos, aquelas rodovias que cortam os desertos e parecem, pelo menos na tela, sair do nada para chegar a lugar nenhum. São estereótipos da solidão, e podemos nos lembrar delas por exemplo em Paris, Texas, de Wim Wenders, também ele um estrangeiro apaixonado pelos EUA.

Existem oscilações de roteiro nesta bonita história de casal. Às vezes fica muito aparente o arco do percurso que Elizabeth terá de percorrer para voltar a si mesma. Mas algumas dessas fraquezas não comprometem esse filme de amor, que é também amoroso para com o espectador.

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