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Um balanço do cinema em 2014

Luiz Zanin Oricchio

27 Dezembro 2014 | 08h38

Este ano tivemos cerca de 370 estreias nos cinemas, segundo levantamento da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Quantidade relativamente estável em relação a anos anteriores. Peneirando, vemos que a qualidade foi rara. Mas existiu.

Em meio à enxurrada de mediocridades comerciais, tanto nacionais como estrangeiras, brilham na escuridão gemas como O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira, Instinto Materno, de Calin Peter Netzer, ou Amar, Beber e Cantar, de Alain Resnais.

Mesmo o cinema norte-americano, responsável por cerca de 80% dos ingressos vendidos no País, ou seja, pela maior parte do lixo que passa pelas salas, apresentou, em sua vertente autoral, alguns filmes dignos de nota. Entre eles, destacaria Inside Llewyn Davis – a Balada de um Homem Comum, dos irmãos Coen, Nebraska, de Alexander Payne, Era uma Vez em Nova York, de James Gray, e este trabalho único que é Boyhood – da Infância à Juventude, de Richard Linklater.

Sempre nos queixamos de que os filmes latino-americanos não chegam ao circuito e, mais uma vez, eles compareceram em número insuficiente. Mas, entre esses poucos, há os que merecem destaque. A começar pelo excelente Gloria, do chileno Sebastián Lelio, Pelo Malo, da venezuelana Mariana Rondón, 7 Caixas, do paraguaio Juan Carlos Maneglia, e o sucesso Relatos Selvagens, do argentino Damian Szifrón.

O cinema brasileiro não teve um grande filme como O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, lançado em 2013, mas alguns títulos se destacaram. Riocorrente, de Paulo Sacramento, é, na opinião deste crítico, o melhor lançamento nacional do ano, com sua São Paulo distópica, em que até o ato de amor delimita um campo de batalha simbólico. Praia do Futuro reafirma Karim Aïnouz como diretor ousado, seguro e inventivo. O Lobo Atrás da Porta foi ótima estreia de Fernando Coimbra, que soube lidar com tema complicadíssimo (assassinato de criança). Com Os Amigos, Lina Chamie tenta mostrar que a ternura ainda é possível, e mais necessária do que nunca, neste país crispado em que o Brasil se converteu. Em O Homem das Multidões, Cao Guimarães e Marcelo Gomes “escrevem” um apólogo pungente da solidão urbana.

O novíssimo cinema brasileiro, que raramente chega às telas comerciais, veio este ano com alguns filmes de exceção, como Eles Voltam, de Marcelo Lordelo, De Menor, de Caru Alves de Souza, e Quando Eu Era Vivo, de Marco Dutra. São trabalhos que marcam opções estéticas particulares, recortes de temas singulares e uma percepção de realidade inovadora. Buscam diálogo com o público, e não se limitam ao gueto com o qual se compraz a maior parte da produção experimental brasileira.

No campo do documentário, destacou-se 70, de Emilia Silveira, sobre um episódio da ditadura flagrado com olhar mais distanciado e bem-humorado. Sem Pena, de Eugênio Puppo, é notável pelo retrato do sistema prisional brasileiro, sob um ponto de vista totalmente original. Em O Mercado de Notícias, Jorge Furtado, valendo-se de entrevistas e de uma peça de Ben Jonson do século 17, expõe as mazelas da mídia na cobertura política. Corajoso e contundente.

Por fim, uma linda animação nacional, O Menino e o Mundo, de Alê Abreu, obteve reconhecimento internacional. Ganhou o prêmio principal no festival de Annecy, na França, tido como o mais importante do cinema de animação. Não é o Oscar e, portanto, não teve a devida repercussão.

Esses foram alguns dos destaques, exceções em meio a uma massa de produção amorfa, repetitiva, sem inspiração ou magia. A observação vale tanto para o cinema internacional como para o brasileiro. Pode chamar a isso crise, se quiser.

Cinco destaques:

Amar, Beber, Cantar. Com este filme, o grande Alain Resnais, morto este ano, despede-se com uma bela celebração da vida.

O Gebo e a Sombra. Manoel de Oliveira é um prodígio. Com mais de 100 anos (está com 105) dirigiu com todo o rigor este maravilhoso estudo sobre a cobiça e a compaixão humana.

Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum. Com a originalidade de sempre, os irmãos Coen fazem um tocante e divertido ensaio sobre um ser humano mediano.

Pelo Malo. Um salto de qualidade do cinema venezuelano, em que a diretora Mariana Rondón flagra o machismo e preconceito da sociedade do seu país.

Riocorrente. Paulo Sacramento vale-se de imagens fortes para contar a história de um triângulo amoroso numa São Paulo transfigurada.