Um Animal Amarelo ou o projeto fracassado de um país
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Um Animal Amarelo ou o projeto fracassado de um país

Luiz Zanin Oricchio

31 de agosto de 2021 | 11h13

 

Um Animal Amarelo, de Felipe Bragança, participou do Festival de Gramado de 2020 e chega agora às salas de cinema. O texto abaixo (com algumas modificações mínimas) foi escrito durante a cobertura do evento

Em sua participação no debate, durante o festival, o cineasta Felipe Bragança disse algo como (a citação não é literal): temos a ilusão de viver no presente, mas quando se abre uma fresta podemos ver que vivemos no passado e, talvez, também no futuro. O comentário vem a respeito do longa Um Animal Amarelo. É dita a propósito não apenas do filme, mas da época histórica em que este vem à luz. 

O “herói” é Fernando (Higor Campagnaro), cineasta falido de 33 anos, que tenta fazer um filme e embarca numa viagem pelo Brasil, Portugal e Moçambique em busca de pistas sobre suas raízes familiares, em especial as de um avô de passado aventureiro e violento. Bragança, de maneira certeira, chama Um Animal Amarelo de “tragicômica farsa tropical”. 

Na pergunta que enderecei a ele durante o debate, chamei o filme de rapsódico, fragmentário, um tanto melancólico e auto-reflexivo, indagando se a forma teria algo a ver com a nossa contemporaneidade – brasileira e mundial. 

De fato, sentimos a pulsação do longa bastante antenada e em ressonância com a nossa perplexidade presente. Nada nos preparava para esse grupo político-militar que agora ocupa o poder e para a parcela da população que o apoia. Vivemos, geração após geração, na ilusão de um Brasil cheio de contradições, porém amigável. Engano. Vivíamos num país e não o conhecíamos. 

O Brasil cordial (no sentido corrente, não no buarquiano), generoso, acolhedor, inteligente, sagaz, hospitaleiro, criativo, sede de uma democracia racial que deveria ser exemplo ao mundo – esse país maravilhoso, o nosso querido patropi, cheio de ginga e ritmo, simplesmente não existe. Nós o criamos e nos deleitamos com nossa criação. E o vendemos alegremente e com orgulho aos nossos clientes internacionais. Com Bolsonaro, Damares, Araújo, Heleno, Guedes, Salles e tutti quanti, caímos na real. Dói. 

E é a partir dessa ferida narcísica que começamos a repensar o país. Não para recair no antigo  “complexo de vira-latas” rodriguiano, mas para repensar em termos mais realísticos nossa condição histórica. Um Animal Amarelo é parte desse processo de dolorosa recalibragem de nossa auto-imagem. 

De certa forma, o cineasta Fernando é uma espécie de Macunaíma às avessas. O original, criado por Mário de Andrade, e transposto para a tela por Joaquim Pedro de Andrade, era o herói sem nenhum caráter, síntese cultural e racial do país, tanto assim que é interpretado sucessivamente por Grande Otelo e Paulo José. No final, a Iara o devora, mas esse herói picaresco era representante de um país que tinha projeto, no caso modernista. 

Projeto que incorporava forças nativas às heranças africana e europeia para, na síntese, gestar algo original e legar essa herança ao mundo. Seríamos, como dizia Darcy Ribeiro, uma “Roma tropical, lavada em sangue negro e lavada em sangue índio”. 

O Macunaíma de Um Animal Amarelo é o anti-herói de um país cujo projeto fracassou. Fernando vaga sem rumo pelo mundo, de mulher em mulher, de país em país, recolhendo as heranças do colonialismo, da escravidão, do racismo e outras formas de violência, envolvendo-se em tráfico de pedras preciosas, até regressar ao torrão natal para fazer o seu filminho, que é na verdade sua grande ambição. Não devemos lamentá-lo, mesmo porque seu registro é auto derrisório. É a situação em que cada um de nós se encontra, cuidando de nosso jardim enquanto o mundo lá fora desaba.

Não gosto de tudo no filme, vejo pontos de oscilação lá e cá, e aspectos que não se conectam. O antinaturalismo do elenco às vezes pode pesar e o metacinema nem sempre funciona. Mas é ambicioso, no bom sentido, ao se instalar em regiões que ainda estamos aprendendo a reconhecer. E inegavelmente estimulante e importante para o debate em torno dessas questões angustiantes: Quem somos? O que poderemos ser? O que estamos fazendo para sair do pântano?

 

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