Um acalanto para Nana
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Um acalanto para Nana

Luiz Zanin Oricchio

20 Abril 2011 | 09h50

De todas as músicas que Nana Caymmi interpretou, em mais de 50 anos de carreira, ela guarda especial predileção por uma – Acalanto. Não por acaso. Bebê indócil (“Tenho o sono difícil até hoje”, diz), motivou o pai, o grande Dorival Caymmi, a compor essa singela canção de ninar. Dorival, com sua voz poderosa, cantava baixinho junto ao berço para que a criança conciliasse o sono. “Eu tinha seis meses quando ele fez Acalanto, depois gravamos juntos quando completei 16 anos, e canto com emoção até hoje”, diz Nana, lembrando também que ganhou esse apelido em razão da música. Prestes a completar os 70 anos de vida, ela recebe agora outro presente, o filme Nana Caymmi em Rio Sonata, do francês Geoges Gachot, com estreia nesta quinta.

“Eu tinha sugerido a eles que o filme se chamasse Acalanto, mas com haverá lançamento no exterior, acharam que o título não faria muito sentido para um público estrangeiro e preferiram o outro”, diz a cantora em conversa com o Estado. Pode até ser uma boa sacada de marketing com a associação do nome da cantora, que mora em Copacabana, de frente para o mar, e o da Cidade Maravilhosa, ainda mais depois do lançamento da animação Rio, de Carlos Saldanha, e com a perspectiva da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016, eventos que colocam a cidade no mapa-mundi midiático.

Título à parte, Nana parece satisfeitíssima com o filme. “Não é sobre a minha vida, é sobre a minha sensibilidade musical”, diz. De fato, se Rio Sonata traz alguns traços da biografia da cantora, é mais sobre seu ato de cantar que a obra se concentra. Como se admitisse que a voz é mesmo o maior depoimento que uma cantora pode dar ao mundo e sobre si mesma, Gachot não interrompe os números musicais e deixa que a arte fale por si mesma. Ou melhor, deixa que cante.

Há, claro, depoimentos, alguns deles muito significativos, como o do ex-marido Gilberto Gil. Mas são aproximações, porque a própria Nana, quando lhe perguntam sobre o seu talento, não sabe o que responder direito. Diz apenas que, com poucos anos de idade, saiu cantando, sem mais nem menos. Tem explicação? “Bem, a única que eu encontro é que nasci numa família profundamente musical, não é? Ninguém é filha de Dorival Caymmi e Stella impunemente”. Sim, porque desse casamento, saíram Nana, Dori e Danilo, todos eles músicos.

Nana gosta de lembrar como os pais se conheceram. Dorival ouviu uma voz cantando Último Desejo, de Noel Rosa, e encantou-se. Antes de se apaixonar pela moça, apaixonou-se pela voz. Era Stella. Nana se emociona com a lembrança. E começa a cantarolar o clássico de Noel. Quando ela termina, pergunto: “Leva em conta outras interpretações para criar as suas? Por exemplo, a de Araci de Almeida para o próprio Último Desejo?” Nana diz que não se preocupa muito com isso. “Pode ser que eu tenha recebido a influência da Araci através da minha mãe, que conheceu Último Desejo através dela, tudo é possível”.

Mas diz que em geral não estuda as interpretações de outras cantoras. Seu “método”, se assim podemos chamá-lo, é diferente. “Conheço muito bem a maior parte dos compositores que interpreto; assim, tento me colocar no lugar deles, sentir com os seus sentimentos”, diz.

Nana faz o que chama de “laboratório”, no sentido teatral do termo. Estuda a canção. Medita. Interioriza. Tenta entender o sentimento de quem a fez. Sentimento: essa palavra é recorrente na conversa. Nana sabe que sua voz desperta admiração, mas, muito mais do que isso, é capaz de tocar em cordas muito profundas da sensibilidade alheia. Talvez isso aconteça em razão da empatia profunda em relação àqueles cujas obras ela interpreta. Seja o Milton Nascimento de Cais, seja o Toninho Hora de Beijo Partido ou o Vinícius de Moraes de Medo de Amar. As canções vibram em sua voz.

Mas há também a técnica. O estudo de música que a família Caymmi toda recebeu, inclusive as aulas de piano com a mesma professora do futuro concertista e já menino prodígio Nelson Freire. “O Nelsinho já era tão bom naquela época que deixava a gente envergonhada; a vontade era ficar atrás da porta só ouvindo ele tocar”, lembra-se. Essa educação em alto nível deixou também um gosto permanente pela boa música. “Quase só ouço clássico”, diz. “Vim no carro ouvindo Debussy”.

Não é difícil ouvir ecos de Debussy, mas também de Villas-Lobos e Nepomuceno na voz de Nana. Há também um resto de sentido trágico, que evoca Dalva de Oliveira e Dolores Duran. Talvez, lá no fundo, de maneira inconsciente, ela dialogue com Edith Piaf, ou Billie Holliday. Por exemplo, na magnífica Canção em Modo Menor, de Tom Jobim, nos versos “…e foste para nunca mais”, sua voz tomba, em escala descendente, como se tombasse para o abismo. E caímos junto com ela, por que o “nunca mais” soa como o nevermore, do corvo de Poe, como seu toque fúnebre e irremediável. Por sorte, ela nos dá a mão e nos reergue nos versos seguintes. Mas a impressão de queda e desamparo é muito forte e fica conosco.

***

Nana chega para entrevista atrasada, e sem ter almoçado. O cronograma foi atropelado pelo caótico trânsito de São Paulo. Ela não estranha. “Aqui foi sempre assim; lembro do tempo em que morava em São Paulo, a rua Augusta era uma loucura, tudo sempre parado”. Verdade. Descer a Augusta a 120 por hora era mais letra de música do que expressão da realidade. Mas a pergunta serve pare recordar o tempo de Nana em São Paulo, tempo dos festivais, ela casada com Gilberto Gil.

A cena está no filme, e também nos extras do documentário Uma Noite em 67. Nana entra no palco e começa a cantar Bom Dia, dela mesmo e de Gil. Ouvem-se algumas vaias. Ela prossegue imperturbável e faz sua emoção passar do palco à plateia. Termina aplaudida. Como fez? “Não dei a mínima bola para o público. Olhei para as luzes à minha frente e prossegui. Deu certo”. Nana já estava escolada. Tomara tremenda vaia no ano anterior ao defender Saveiros, de Dori Caymmi e Nelson Motta.

No depoimento dado ao filme, Gilberto Gil lembra que muita gente duvidava que Bom Dia fosse mesmo uma parceria entre ele e Nana. “Achavam que eu dizia isso porque éramos casados; é um engano, a música é mais dela do que minha”. Nana concorda. Mas nota que, na época, muita gente falava contra ela e Gil simplesmente por racismo. “Não aceitavam a filha de Dorival Caymmi casada com um homem negro”, diz.

A aprendizagem dos festivais valeu. Mesmo assim, com toda essa experiência, diz que sente um certo arrepio ao enfrentar uma plateia ao vivo. “Não é por nada não, mas há muita coisa que a gente não consegue controlar. O calor, o suor, o som.” Certo. O imponderável que existe em toda a apresentação ao vivo. Que, no entanto, às vezes traz um colorido emocional que gravações, tecnicamente perfeitas, não conseguem transmitir. “Mas esse é ponto”, diz Nana. “Eu faço questão de que as gravações surtam o mesmo efeito sobre a sensibilidade das pessoas que as apresentações ao vivo”. E, na verdade, esse é mesmo um dos segredos de Nana Caymmi. Ouvimos seus discos como se ela estivesse cantando ao vivo, para nós. Ela diz que tenta, no estúdio, reproduzir a mesma sensação que teria se estivesse cantando ao vivo, diante das pessoas. “Busco a mesma emoção”. E por isso ela passa a quem ouve.

Falamos muito de música ao longo de toda a entrevista, e de que outro assunto se falaria? Mas Nana a termina dizendo que o que mais sente falta, hoje em dia, é de silêncio, ao se referir a esse bem, um dos mais raros no mundo contemporâneo. Música também é feita de silêncio.  

Gachot

O francês Georges Gachot é um apaixonado pela música brasileira. Autor de Bethania – Música É Perfume, continua com Rio Sonata para homenagear Nana Caymmi. E já tem o próximo personagem em vista – Caetano Veloso, com quem já conversou a respeito do projeto.

Gachot tem tanto respeito por suas personagens que prefere nem chamar suas obras de documentários. “São filmes musicais mesmo, com depoimentos, mas nos quais a música está sempre à frente, é sempre o mais importante”. Daí a opção de criar mais um clima musical do que reviver os fatos principais da vida do personagem. Uma opção acertada, pois é a arte que fala mais do artista do que os fatos de sua vida.

Sobre Nana, ele diz ter ficado impressionado por sua cultura musical. “Ela tem mesmo uma relação muito forte com a música clássica, conhece muita coisa. Isso é muito raro em cantoras populares”. Gachot entende que essa dimensão culta ajuda a dar à voz de Nana a profundidade que ela tem.

E o filme de fato se resolve em várias apresentações ao vivo de Nana, somadas a material de arquivo, mostrando-a em diversas fases de sua carreira. Além de Gil, Milton Nascimento e o irmão Dori falam sobre ela. Há uma luminosa aparição de Dorival Caymmi, já velhinho, no apartamento da filha. Mas é a própria Nana quem dá o tom do show, falando de modo desbocado sobre os achaques da velhice, jogando baralho com amigos ou relembrando fatos do passado.

Há uma alternância às vezes entre a voz da cantora e cenas de cartão postal do Rio de Janeiro. Mar, praia, garotos jogando bola, casais. Como já se andou dizendo por aí, imagens bonitas são consideradas hoje em dia inconvenientes, pois esconderiam o outro lado do Rio, os problemas sociais, a violência, as drogas, etc.

Mas o Rio de Nana Caymmi é o da beleza e o da poesia, que têm existência tão real quanto o outro, o das contradições sociais. E a beleza também tem seus direitos, ou não?