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Um 2013 de extremos *

Luiz Zanin Oricchio

24 de dezembro de 2013 | 09h34

 

O que resta de 2013? Balanço do lado positivo, a reabilitação da seleção brasileira diante dos olhos da torcida na Copa das Confederações. Do negativo, muito mais amplo, o baixo nível técnico do Campeonato Brasileiro, o fiasco do Atlético Mineiro no Mundial de Clubes e, acima de tudo, a vergonhosa volta do tapetão, prática que, inocentemente, julgávamos banida do nosso futebol. Tal como um dragão mitológico, quando é dado por morto o tapetão ressurge com força, vigor e exuberância redobrados. Provavelmente encerraremos o ano sem saber ao certo quem fica na Primeira Divisão, quem cai para a Segunda e quantos times disputarão o Brasileirão de 2014, que nosso amigo Antero Greco já batizou, de modo certeiro, de Bagunção-2014.

Gostaria de falar, em primeiro lugar, do Atlético-MG, que nos emocionou, a todos que gostamos do bom futebol, com sua épica conquista da Libertadores da América. Na verdade, era o título a ser vencido, no talvez mais difícil torneio do mundo (não estou comparando tecnicamente com a Liga dos Campeões, falo apenas em dificuldade). No entanto, há sempre um passo a mais e, no caso, o Atlético, mal comemorou o título continental, já começou a pensar no Mundial. Ou melhor, no Bayern de Munique, seu concorrente “natural”.

De tanto pensar morreu um burro, diziam os antigos. Tivesse o Atlético tocado a sua vida adiante, procurando aprimorar seu jogo, sem pensar que o time alemão seria o seu único obstáculo para a glória mundial, talvez não teria caído diante do fraco Raja Casablanca. Fraco, eu disse? Sim, fraco, mas não a ponto de ser derrotado por antecipação. Como não é peru, que morre de véspera, o Raja fez um jogo inteligente e mandou um Atlético sem vibração para o espaço. Ou melhor, para a disputa do terceiro lugar, que, entre nós, é considerada uma humilhação.

Tudo isso deveria levar o futebol brasileiro a uma meditação. Já nos conformamos com o abismo existente entre o futebol de clubes do Brasil e o da Europa. Nem poderia ser diferente. A Europa, com seu poder econômico, transformou os clubes em multinacionais. Contratam os melhores jogadores em todos os cantos do mundo, América do Sul em especial. O resultado dessa política não poderia ser outro senão o rebaixamento técnico de todos os países fornecedores de atletas. Isso hoje é o consenso. O que ainda não nos preparamos para aceitar é que os times brasileiros se enfraqueceram a tal ponto que já não ganham com facilidade nem dos de países menos tradicionais, e nem mesmo dos do último escalão, como China e Marrocos.

O abismo é entre o futebol da Europa e o futebol do resto do mundo, Brasil incluído. Lá embaixo, ou melhor, cá embaixo, tudo ficou mais ou menos homogêneo. Por mais que essa constatação fira nosso narcisismo futebolístico, ela é necessária para que, algum dia, com homens melhores entre nossos dirigentes, algo possa ser feito para mudar esse constrangedor estado de coisas. Por enquanto, com essa gente, a esperança é nula.

Esse enfraquecimento generalizado do futebol de clubes no Brasil não atinge, é claro, a seleção, já que esta é composta, majoritariamente, por jogadores que atuam nos principais centros. É muito provável que venhamos a disputar a Copa do Mundo de 2014, no Brasil, sem um único atleta titular em atividade no nosso país. O risco, aqui, não é o da perda de qualidade, mas de descaracterização. Em especial para quem está acostumado a pensar a excelência da seleção como mera decorrência do nível do futebol praticado no país. As duas esferas descolaram-se. Uma coisa é o futebol da seleção; outra, o dos clubes brasileiros. O primeiro é milionário e qualificado, o segundo, indigente e mal das pernas.

Acostumamo-nos nos últimos anos a ver a seleção como uma entidade distante, composta por jogadores mimados e estranhos à realidade do País. Qual não foi a surpresa quando a torcida, durante a Copa das Confederações, abraçou a seleção brasileira e dela reapropriou-se, como quem retoma posse de algo que é seu por direito. Terá sido um fenômeno passageiro, um súbito nacionalismo, subproduto das manifestações de junho no que elas tinha de mais legítimo? Veremos durante a Copa. Mas foi um ótimo sinal.

* Coluna publicada na seção de Esportes do Estadão

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