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Últimos pitacos sobre o Festival de Gramado 2013

Luiz Zanin Oricchio

18 de agosto de 2013 | 22h50

1)  Acho que o júri de longas brasileiros poderia ter equilibrado melhor a premiação. Ficou clara a decisão de não deixar nenhum filme de mãos abanando – a chamada reforma agrária. Ok, mas a distribuição de lotes poderia ter sido melhor. Não contesto a vitória de Tatuagem, de Hilton Lacerda, ou o troféu de ator a Irandhir Santos, ou outros prêmios que o filme pernambucano tenha recebido. Mas entendo que A Bruta Flor do Querer foi supervalorizado (kikitos de fotografia e direção), em detrimento de Éden (desenho de som e atriz – Leandra Leal) e, especialmente, Os Amigos, de Lina Chamie, que ficou apenas com montagem. O belo filme de Lina, sensível, alusivo e poético, foi, para mim, o grande injustiçado do festival.

2)  O júri de longas estrangeiros foi bem, apesar de uma opção talvez estranha. Depositou todas as fichas nas qualidades formais em Caçando Vaga-Lumes (Colômbia), com fotografia, roteiro, atriz e direção, mas premiou o conteúdo de impacto de Repare Bem, de Maria de Medeiros, dando-lhe a estatueta de melhor filme. Também a crítica entendeu que o pungente depoimento de Denise Crispim, ex-presa política e viúva de Eduardo Leite, o “Bacuri”, assassinado pela ditadura, merecia o destaque maior. Eu também votaria nele. Repare Bem levou ainda o Prêmio Dom Quixote, dos cineclubes, cujo emblema, uma pomba, foi desenhado por ninguém menos que Pablo Picasso.

3)  O júri de curtas consagrou o belíssimo Acalanto, com trilha sonora, direção de arte, atriz, diretor e melhor filme. Ganhou ainda o júri popular. Ok, também gosto muito do filme. Mas, e Sanã, o estupendo registro do garoto albino e sua vida nas dunas do Maranhão? Ninguém se lembrou dele? Considero uma omissão grave. Menos mal que o também ótimo A Navalha do Avô, de Pedro Jorge, foi lembrado com roteiro e ator.

4)  Premiação à parte, o nível médio do festival foi bom, com algumas nuances a considerar. A mostra brasileira, mais uma vez, foi melhor que a estrangeira. A curadoria precisa prospectar melhor os filmes latinos disponíveis. Há um universo de escolha muito grande nesse segmento, muito maior do que o dos filmes brasileiros. Uma sugestão: enviar um observador ao Festival de Havana (dezembro), o mais amplo painel do cinema latino entre os festivais do mundo. A partir deste ponto de observação, será muito fácil formar uma ótima seleção para o ano que vem.

5)  Muito boa também a safra gaúcha, tanto de curtas como de longas. Claro que nem tudo é bom, mas o nível médio surpreendeu. Entre os curtas, achei interessantes As Memórias do Vovô, Férias e Ed. Muito bom, um patamar acima, é Os Filmes Estão Vivos, que competiu também na mostra nacional. É um filme de “filho para pai” com o crítico e cineasta Fabiano de Souza homenageando seu pai, Enéas de Souza, um dos críticos mais importantes do país.

6)  Não vi todos os filmes da Mostra de longas gaúchos. Mas o que vi, gostei. Em especial o sensível Sobre Sete Ondas Verdes Espumantes, estudo poético da obra de Caio Fernando Abreu, por Bruno Polidoro e Cacá Nazário. Também Dyonélio, de Jaime Lerner, é bem interessante em seu propósito de recriação da trajetória do grande escritor Dyonélio Machado, autor de Os Ratos e O Louco do Cati, entre outros romances. Danúbio, de Henrique Freitas Lima, é um interessante documentário sobre o artista plástico Danúbio Gonçalves e seu diálogo com os gravuristas mexicanos. Não conhecia Danúbio e a ele fui apresentado, por meio do filme. O cinema também serve para isso. Para preencher algumas lacunas da nossa ignorância.

7)  Enfim, era meio que impossível ver tudo. As sessões noturnas foram longas demais, começavam às 19h e não raro se estendiam até depois de 1h da manhã. Dois longas, vários curtas e homenagens faziam das sessões noturnas provas de resistência física ao frio, à fome, ao sono e, às vezes, à frustração. Na noite em que houve a premiação da mostra gaúcha a sessão se estendeu até a madrugada. Até jantar e voltar para o hotel, não se dormia antes das 3h da manhã. Isso sem falar na temperatura polar que nos esperava fora do cinema. Não havia transporte, não há táxis e tinha-se de voltar a pé, sob uma temperatura de 2ºC. Não é mole, não. No dia seguinte, a rotina de debates recomeçava e, à tarde, havia as mostras gaúchas. Nem se o dia tivesse 30 horas ou mais seria possível seguir tudo. E agora se fala que Gramado pode abrir mais uma sessão, para filmes mais experimentais. Ou seja, teremos, cada vez mais, de escolher o que estamos dispostos a ver, ou até onde vai a nossa capacidade física e mental de apreensão. Noto que, pelo cansaço físico das maratonas, os festivais de cinema têm se tornado cada vez mais hostis à reflexão sobre os filmes. Quem está exausto não pensa.

8)  Uma palavra final sobre o público. Houve queixas, até por parte dos curadores do festival, sobre a frieza da plateia. De fato, os aplausos eram apenas protocolares, quando aconteciam. Será que não sabemos mais nos emocionar com um filme e expressar essa emoção através de palmas? Filmes dignos de aplauso, havia. Homenageados famosos, idem. No entanto, o público parecia muito blasé, indiferente e arredio. Eu, que sou veterano de festivais, já testemunhei verdadeiras ovações públicas, mesmo em Gramado, conhecido por seu público mais contido. Será que não conseguimos mais nos emocionar? Será que o excesso de tudo nos tirou um pouco o brilho mental, a fome das novidades, e nos sentimos sempre como aquelas pessoas que se sentam à mesa já sem fome e enfastiadas? Ficam as perguntas, que não sei responder.

 

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