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Ulisses do terceiro mundo

Luiz Zanin Oricchio

28 de junho de 2010 | 08h22

Dá para fazer um filme com dois mil reais? Dá para fazer até com menos. Com meros R$ 1860, que foi o que os diretores de Estrada para Ythaca garantiram ter gastado na produção do seu road movie. Sim, os diretores – Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes – são os próprios intérpretes. Luiz e Ricardo são irmãos gêmeos; Guto e Pedro são primos. Um filme de família. De brodagem. Funciona lindamente.

É obra que se faz, fazendo, como naquele verso de Machado sobre o caminhante, que faz seu caminho ao andar. Há uma ideia, alguns jovens com vontade de fazer cinema. “Tínhamos um carro, nele cabiam quatro pessoas, nós éramos quatro e quatro acabaram sendo os personagens”, diz Pedro. Nos primeiros planos, captados com uma pequena câmera digital, vemos o grupo de amigos num bar, bebendo e falando (pouco). Resolvem ir para Ythaca, em busca do quê? Talvez de uma imagem, de alguém que perderam. Sempre se anda em busca de algo ou alguém.

No meio da viagem, uma citação explícita. Uma encruzilhada, com dois caminhos possíveis – um, pela direita, que leva ao cinema de aventuras; o outro, pela esquerda, que conduz ao cinema do terceiro mundo, “perigoso, divino e maravilhoso”. A música de Caetano e Gil, que tem esses versos, é cantada. Claro, você reconheceu aqui a citação: ela está em Vento do Leste, um dos filmes radicais de Jean-Luc Godard em sua fase do Grupo Dziga Vertov. O “ator”, no filme de Godard, é ninguém menos que Glauber Rocha.

A citação não é gratuita. Ela é quase um manifesto incrustado no meio de Estrada para Ythaca. “Nesse mundo de muito relativismo e nenhuma certeza, a gente tem de tomar uma posição”, diz Guto Parente. “Fazemos uma opção pela esquerda, pelo cinema pobre, sujo, impuro, o cinema do terceiro mundo”. E aqui, se a referência explícita é a Glauber e Godard, a implícita é a Rogério Sganzerla que, em 1968, estreou com um objeto não-identificado, que descrevia como um “faroeste do terceiro mundo” – O Bandido da Luz Vermelha. As referências se sobrepõem – de Glauber, Godard e Sganzerla à mitologia e à Ythaca do poeta Konstantinos Kavafis. Os rapazes são, à sua maneira, seguidores do Ulisses mitológico. O filme constrói, em sua viagem, um processo de amadurecimento e de luto por um outro amigo, morto. Dessa viagem não há volta. Talento, intuição, boas fontes, coração e um pouquinho de grana – e eis aí um belo filme, uma estreia promissora.

Não menos inventivo é o outro concorrente, o mexicano Alamar, de Pedro González Rubio, um curioso mix de documentário e ficção. Um garoto, filho de mexicano e italiana, mora em Roma, mas vai passar uma temporada com o pai,que é pescador num atol, o santuário ecológico chamado Banco Chincorro. A simplicidade, o foco no trabalho cotidiano da pesca, visto pelos olhos de uma criança fazem o encanto deste filme. Sim, há lugar para a imaginação no cinema. As possibilidades do audiovisual são ilimitadas.

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