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Ué, já começou?

Luiz Zanin Oricchio

15 Maio 2007 | 20h21

Amigos, minha coluna no Esportes do Estadão:

Foi com surpresa que me dei conta do início do Campeonato Brasileiro. Pensei que fosse só problema meu, mas conversei com amigos e constatei a mesma admiração. Já!?, era o comentário mais freqüente. Claro, todo mundo ‘sabia’ que iria começar no sábado, mas era a mesma coisa que não saber, porque ninguém se sentia motivado para o principal campeonato do País. Uma coisa é saber com a cabeça, mero conhecimento racional. Outra, é ‘saber’ com a emoção, sentir aquela expectativa positiva por algo que desejamos muito, aquela espera que faz o tempo passar mais devagar. Não, o Brasileirão chegou de repente, sem avisar, como uma frente fria ou uma onda de calor em pleno inverno.

Essa sensação não deveria nos surpreender. Afinal, os campeonatos estaduais acabaram semana passada e ainda tem gente comemorando título. Ou chorando título perdido. A Libertadores entrou em sua fase mais aguda, assim como a Copa do Brasil. Os torneios vão se superpondo, as pessoas não conseguem reciclar seu emocional de uma hora para outra, para sair de um e concentrar-se no seguinte. Seria preciso um tempo para se habituar ao novo.

É só o futebol que está desse jeito? Que nada, essa é uma característica da nossa época: pelo excesso de oferta, não conseguimos aproveitar mais nada direito, porque nos sentimos sempre empanturrados. Somos submetidos a uma enxurrada de livros, discos, filmes que não deixam resíduo atrás de si. Aparecem, ganham uma capa nos segundos cadernos e desaparecem sem deixar traço, sendo substituídos pelo produto mais novo. Também a máquina da bola precisa funcionar a todo vapor. Como o futebol tornou-se muito caro, o capital precisa girar com rapidez para pagar o investimento. Há os campeonatos locais, mas também a Copa dos Campeões, a da Uefa, as ligas da Espanha, Alemanha, França, Portugal, Itália. Quem quiser, e tiver TV paga, assiste a jogo a qualquer hora do dia e da noite. A oferta passou de generosa a excessiva. Periga provocar overdose no freguês.

Nesse clima de super oferta, uma promoçãozinha não faria mal a ninguém. Por exemplo, quem é o atual campeão brasileiro, que está pondo seu título em disputa? O São Paulo, que deu início ao campeonato jogando a portas fechadas com o Goiás, para cumprir punição do ano passado. Quer maior anticlímax que esse? O Corinthians chega com um time novo e que não inspira ainda confiança na torcida. O Flamengo foi campeão no domingo, desclassificado da Libertadores na quarta e viu-se obrigado a enfrentar o Palmeiras no domingo. Santos e Grêmio, envolvidos na Libertadores, saíram previsivelmente goleados. Pouparam jogadores e estão com o espírito em outra parte. E assim por diante.

Com todos esses problemas, teremos um grande Campeonato Brasileiro assim que a coisa pegar no breu. O futebol neste País é um caso raro de sobrevivência na adversidade. Que outro campeonato do mundo pode dizer que tem, pelo menos, 12 grandes clubes numa disputa de 20 times? Talvez até mais do que isso, é só fazer as contas: os quatro grandes de São Paulo, os quatro do Rio, Inter e Grêmio, Atlético Mineiro e Cruzeiro, e ainda os sempre fortes times do Paraná e os nordestinos com suas apaixonadas torcidas. Aliás, foi no Recife que o Brasileirão começou para valer, com a bela recepção da torcida do Sport ao seu time na Ilha do Retiro. Que retribuiu goleando o dispersivo Santos por 4 a 1. Teremos um grande campeonato. Mas será um campeonato de qualidade técnica? Aí já são outros 500 e, como até o Lula já se convenceu de que no Brasil não se pratica mais o melhor futebol do mundo, é melhor colocar as barbas de molho.