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Tyson

Luiz Zanin Oricchio

30 de outubro de 2009 | 14h00

Mike Tyson hoje compreende a si mesmo. Diz que é um homem de extremos, incapaz de viver no meio termo. Por isso foi capaz de esbanjar U$ 400 milhões e terminar na insolvência. Vai do topo do mundo ao fundo do poço. Foi o homem de ferro indestrutível, que derrotava adversários temíveis no primeiro round, e beijou a lona sob ação de pugilistas pangarés. Esse é o personagem que emerge do ótimo documentário Tyson, de James Toback.

O centro do filme é uma longa entrevista com o lutador, entremeada de material de arquivo – das principais lutas e de algumas passagens inglórias da sua biografia: as brigas com a primeira mulher, a acusação de estupro que lhe custou três anos de prisão. Algumas raras cenas familiares: por exemplo, quando encena uma luta com a filhinha e vai a nocaute.

Uma figura domina o imaginário do lutador – a do seu mentor Cus D’Amato, que o tirou das ruas quando era garoto e o transformou em vencedor. D’Amato é uma figura lendária do boxe americano e foi imortalizada por um texto famoso de Norman Mailer. Seu método era fazer com que o lutador respeitasse o próprio medo. O medo ensina e, quando sob controle, torna-se o maior aliado do pugilista, acreditava. D’Amato morreu sem ver seu pupilo transformar-se em campeão do mundo. “Perdi a minha referência”, confessa Tyson.

E assim, por paradoxo, o documentário torna-se um ensaio sobre a fraqueza do homem forte. Menino de rua, marginal, sem pai, mãe prostituta, criado em reformatórios, Tyson teve carreira meteórica. Era mais baixo e mais leve que a maioria dos pesos-pesados. Mas, imensamente forte e rápido. Além disso, assistia obsessivamente a filmes com lutas dos grandes pugilistas, de Joe Louis a Muhammad Ali. Assimilou muito do que viu e, durante um período, tornou-se imbatível. Perdeu para si mesmo, para a vida promíscua, as drogas, o álcool, o próprio ego, órfão da figura paterna de D’Amato. O filme é a história dessa tragédia pessoal.

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