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TV pública e estatal

Luiz Zanin Oricchio

21 Março 2007 | 09h29

Apesar da condenação unânime da mídia ao projeto de TV estatal, acho que não deveríamos perder de vista a necessidade de uma televisão pública de boa qualidade no Brasil. Ninguém, em sã consciência, pode desejar uma TV que sirva a propósitos de propaganda do governo. Nem tucanos nem petistas, porque os governos passam e uma TV desse tipo serve aos interesses do poder de plantão. Quem hoje está na oposição, amanhã estará no governo, e vice-versa.

Agora, que o Brasil merece ter uma rede de emissoras do nível da BBC, ou da RAI pré-Berlusconi, lá isso merece. Quer dizer, um veículo não submisso ao Estado ou às exigências imediatas do mercado, com programação independente de pressões políticas e das medições do ibope, esse grande instrumento a serviço da mediocridade televisiva.

Acho que nem mesmo fundamentalistas de mercado seriam capazes de defender a tese de que a livre concorrência, nesse setor, leva a um aumento geral de qualidade. O que acontece na prática é justamente o contrário – a concorrência pelo pior, pela baixaria, pelo simplismo, pela ausência de reflexão, pela exploração da miséria humana, pelo jornalismo transformado em espetáculo. Basta dar uma zapeada pela TV aberta para que cada qual tire suas conclusões. Dizer que é isso que o povo quer, me parece o mais tortuoso dos raciocínios: e por acaso lhe tem sido dada opção de coisa melhor?

Mesmo em termos do famigerado ibope às vezes acontecem respostas surpreendentes. Vamos lembrar que, na fase mais positiva da TV Cultura, um programa do nível de Castelo Rá-Tin-Bum alcançou 12 pontos de audiência. É preciso oferecer às pessoas a oportunidade de algo melhor, pois não é justo ter de se decidir entre o Big Brother, o Ratinho e a Luciana Gimenez. E tempo se faz necessário (tempo que o mercado não se permite), pois aprimorar o nível de exigência do distinto público não é coisa que se faça de um dia para o outro.

Enfim, seria preciso criar alternativas culturais de longa duração e uma dessas alternativas, no campo do audiovisual, passa pela TV pública. Pública, não estatal.