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Turistas: o Brasil como abominação

Luiz Zanin Oricchio

12 de fevereiro de 2007 | 20h54

Não sei se seria um desrespeito aos nossos irmãos ianomâmis chamar de programa de índio aquele que fiz agora à tarde: fui a uma sessão de imprensa assistir a Turistas, que estréia nesta sexta. Talvez vocês já tenham ouvido falar nesta produção norte-americana ambientada no Brasil. Basicamente é o seguinte: alguns jovens, de vários países (mas todos do Primeiro Mundo), se encontram numa praia do Nordeste (na verdade filmada no Rio), tomam um porre. Dormem no paraíso e acordam no inferno. No centro da trama, um médico brasileiro especialista em seqüestrar gringos e extrair seus órgãos vitais para que sejam transplantados em “brasileirinhos carentes”. Seria a forma de vingar a exploração do Terceiro Mundo pelo Primeiro. Não é mimoso?

Mas é instrutivo porque podemos entender o jeito como nos vêem. Ou pelo menos como alguns nos vêem. O pesquisador Tunico Amâncio escreveu um livro sobre o assunto chamado O Brasil dos Gringos. Lúcia Murat o tomou como ponto de partida para seu filme O Olhar Estrangeiro. São inventários do conjunto de clichês e preconceitos que filtram a imagem do Brasil para consumo externo. Há casos engraçados , há casos tristes, há exemplos de ignorância mais ou menos inocente, outros de flagrante desrespeito. Mas acho que nenhum desses exemplos colecionados por Tunico ou Lúcia se aproximou deste caso de Turistas. Aos estereótipos grotescos sobre o Brasil, o diretor John Stockwell junta fartas porções de sadismo e mau gosto. Chega ao ápice numa detalhada cena de vivissecção, com a vítima consciente sendo despojada dos seus órgãos internos. Disgusting.

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