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Tullio Kezich (1928-2009)

Luiz Zanin Oricchio

17 de agosto de 2009 | 16h15

Quem frequenta o Festival de Veneza se acostumou a ver aquele senhor sempre presente às sessões e, em geral, cercado de um grupo de pessoas que ouviam suas opiniões respeitosamente. Era Tullio Kezich, crítico de cinema do Corriere della Sera que, durante o festival, publicava uma coluna especial chamada, creio, O Lido de Kezich. Era breve, coisa talvez de uns 3 mil caracteres por dia, mas que davam, com elegância e síntese, sua opinião sobre o que de importante ou curioso estava acontecendo naquele que é o mais antigo festival de cinema do mundo.

Várias vezes conversei com ele. Disse que havia lido a sua excelente biografia de Federico Fellini, aqui publicada pela LP& M. Ele me perguntou se eu conhecia outra biografia, a de Dino de Laurentiis, que ele havia lançado há pouco. Disse-lhe que tinha lido a respeito mas ainda não possuía o livro. Queria comprar e pedir-lhe uma dedicatória. Na correria do festival acabei esquecendo e assim ficou. Nos outros anos nos víamos, nos comprimentávamos e eu sempre o lia. Não para concordar com ele, porque não é para isso que lemos os críticos, mas porque escrevia com estilo, tinha ideias pessoais e as expressava com a precisa elegância de alguns dos bons escritores italianos.

Faz algum tempo, a pesquisadora Mariarosaria Fabris, também ela italiana, me enviou um texto, uma resenha do último livro de Kezich sobre a filmagem de La Dolce Vita, de Fellini. O texto foi publicado no Caderno 2 e, pelo que nele lemos, parece ser um livraço. Leia aqui. Agora que Tullio se foi, aos 80 anos, esperamos que essa obra seja traduzida em português. Kezich era um homem da cultura italiana e não apenas um crítico de cinema. Escreveu roteiros, adaptou obras literárias e até levou para a televisão A Consciência de Zeno, de Italo Svevo, triestino como ele. Kezich foi um belo exemplo de intelectual que tinha o cinema como foco principal, mas não único, de seu trabalho.

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