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Tudo Pode Dar Certo

Luiz Zanin Oricchio

30 de abril de 2010 | 10h50

Woody Allen de volta a Manhattan. E ao seu universo temático favorito, o da angústia do homem diante da velhice, da finitude e do acaso da existência. Há isso em Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works), com o adicional de que o filme é muito, muito engraçado, aquele tipo de comédia refinada, culta, um tanto desalentada e auto-irônica que se tornou marca registrada do diretor.

Seu alterego, agora, é Boris Yelnikoff (Larry Davis), meia-idade passada, físico que, segundo ele mesmo, chegou a ser cogitado para o Nobel, mas não chegou lá. Boris acha-se superior à humanidade comum, mas não consegue viver consigo mesmo. Hipocondríaco, já tentou suicídio, ao jogar-se do apartamento (ficou manco), separou-se da mulher e passa o tempo numa mesa de bar com amigos, jogando conversa fora e insultando o nível médio de inteligência da humanidade.

A coisa muda um pouco de figura quando Boris cede à tentação de abrigar em casa uma mocinha sem eira e nem beira, vinda do Mississipi. Trata-se de Melody (Evan Rachel Wood). Uma antítese de Boris. Jovem, bonita, flor inculta, cheia de ensinamentos dos livros de auto-ajuda. Fica difícil a conversa entre ela e alguém que só ouve Beethoven, gosta de conversar sobre mecânica quântica, a crença num deus que joga dados e Dostoievsky.

Parece não haver nada de tão manjado quanto esse encontro de contrários, que se instruem mutuamente, etc…Mas é claro, também, que devemos confiar em Woody Allen e em sua capacidade de inovar temas batidos, até mesmo aqueles que ele próprio já usou várias vezes. O sentido de inadequação de Boris é uma constante na filmografia de Allen. A diferença é que, em Boris, esse “sentimento de não estar de todo” (expressão cara a Julio Cortázar) mescla-se ao da onipotência de quem se proclama gênio sem qualquer constrangimento e chama os outros de vermes ou seres inferiores.

Boris conduz a ação, quase tudo gira em torno dele, que, inclusive, fala para a câmera e se dirige ao público – num efeito de distanciamento que sugere, de maneira direta, um diálogo com o espectador. A história fala de nós, segundo a sabedoria latina de Horácio. Mas, se essa fábula que nos diz respeito é construída em torno desse personagem central, outros surgirão, como o pai e a mãe de Melody que, em contato com a metrópole, sofrerão transformações inesperadas.

Mudanças de comportamento de dois carolas moralistas, que fazem, talvez, a parte mais engraçada – e crítica – da história. Na cosmovisão de Woody Allen, pensada através de Boris, Melody e os outros personagens, a cidade grande, Nova York no caso, é, com todos os seus problemas, o lugar onde a civilidade pode ser exercida e temperar os preconceitos. É o lugar para se viver. Neurótica e neurotizante, talvez, mas infinitamente preferível ao mundo sedimentado da província.

É também o lugar onde, em meio ao caos do universo, podemos descobrir uma frestinha de felicidade, qualquer coisa que funcione e atenue, um pouco, a solidão do espaço cósmico pressentida por Boris. Por qualquer um de nós, para falar a verdade. Ninguém precisa ser um gênio da mecânica quântica para descobrir que é nas pequenas coisas que mora a nossa (também ínfima) possibilidade de salvação.

Allen, mais uma vez, discute filosofia sem que o espectador perceba, pois está ocupado em apenas se divertir.

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