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Tudo o que Arnaldo Jabor filmou

Luiz Zanin Oricchio

31 Maio 2007 | 09h21

Há 40 anos, Arnaldo Jabor lançava seu primeiro longa-metragem, o documentário A Opinião Pública. Era época de Cinema Novo, quando os cineastas entendiam que haviam recebido um mandato popular. Falavam em nome do povo. Mas havia um enigma social: o que pensava a classe média, aquela que havia marchado ‘com Deus pela liberdade’, e aderira sem qualquer hesitação ao golpe militar que derrubou o presidente João Goulart? Era essa pergunta que movia o documentário que está agora completando quatro décadas e justifica a efeméride, comemorada pelo Centro Cultural Banco do Brasil com uma retrospectiva completa do cineasta.

Sim, estão lá os sete longas-metragens dirigidos por Jabor, e mais dois curtas (O Circo, seu primeiro filme e o episódio Amor à Primeira Vista: Carnaval). Haverá ainda duas mesas de debates, uma delas, a de hoje, com o próprio Jabor, após a projeção de A Opinião Pública, programada para as 18h30.

Neste e nos próximos dias, o público poderá conferir uma trajetória cinematográfica singular, e que se interrompe de forma prematura com as dificuldades que o cinema brasileiro enfrentou no início da década de 1990. Foi então que Arnaldo Jabor deu início à sua atividade jornalística e tornou-se um dos colunistas mais conhecidos – e polêmicos – do País. Jabor escreve no Caderno 2 às terças-feiras e, numa de suas últimas colunas, anunciou que em breve retomará à carreira de cineasta, interrompida desde que dirigiu Eu Sei Que Vou te Amar, em 1986.

Em seu segundo longa, Pindorama (1970), Jabor utiliza um tipo de retórica em voga na época, a alegoria. Para dizer como Guimarães Rosa, os cineasta eram alegóricos não por boniteza, mas por precisão. A idéia era burlar a censura, mas o preço a pagar era que se tornavam incomunicáveis e o público os rejeitava. Nessa história ambientada no século 16 para falar do presente, respira-se o ar de desespero do pós AI-5. Fizeram filmes assim também Ruy Guerra (Os Deuses e os Mortos) e Nelson Pereira dos Santos (Azyllo muito Louco). Em sacada feliz, como sempre, Paulo Emílio Salles Gomes, chamava-os de ‘filmes suicidas’.

Seus dois longas seguintes são diálogos com a obra de Nelson Rodrigues – Toda Nudez Será Castigada (1973) e O Casamento (1975). O primeiro é mais bem logrado que o segundo. Aliás, Toda Nudez é uma das melhores versões para a tela de Nelson Rodrigues, com uma atuação iluminada, de entrega e visceralidade de Darlene Glória no papel da prostituta Geni. Já O Casamento foi feito propositadamente áspero, para épater, e, como diz o próprio Jabor, quando isso acontece, o público se vinga, deixando o cinema às moscas. Foi remontado pelo diretor, que aparou algumas arestas desnecessárias.

Em ambos, o universo familiar pesado de Nelson Rodrigues, a burguesia, ou a pequena burguesia, com suas taras, suas obsessões sexuais, a dupla moral, a mesquinhez. É possível que aquela pesquisa sobre a classe média, que começara lá atrás com A Opinião Pública, tenha prosseguido na ficção, nessas adaptações de Nelson Rodrigues. Seu tom é o da ‘dicção apocalíptica’, na feliz expressão de Ismail Xavier. A cor saturada, as interpretações paroxísticas, a música intensa; enfim, universo de Nelson Rodrigues.

Outro é o tom de Tudo Bem (1978), que Jabor considera seu melhor roteiro. Ele sintetiza as ambições totalizantes do Cinema Novo (que a essa altura já não existia mais), trazendo para dentro de um apartamento de classe média a totalidade da vida brasileira. Uma alegoria no microcosmo? Melhor talvez falar de uma meta-alegoria, que comenta a si mesma e de maneira nenhuma procura ser cifrada como a de Pindorama.

A sociedade de classes à brasileira, com suas contradições e abismos, é tematizada quando a família de classe média é ‘invadida’ pelos trabalhadores que fazem uma reforma no apartamento. É filme para ser revisto com atenção, pelo inventário e diagnóstico que faz esse desacerto social chamado Brasil.

Novamente uma mudança de registro e preocupação com o díptico Eu te Amo (1980) e Eu Sei Que Vou te Amar (1984), imersões de um artista psicanalisado no difícil mundo do relacionamento, na questão do casal, na impossibilidade da relação total, para usar uma idéia de Lacan que ronda em especial esse diálogo corporal no abismo, cheio de som e fúria, que é Eu Sei Que Vou te Amar. Por ele, Fernandinha Torres ganhou a Palma de Ouro de interpretação feminina em Cannes.

Qual um possível traço dominante, em obra tão variada? A tentativa permanente, e às vezes desesperada, de compreender esse quebra-cabeças chamado Brasil.