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Tropa de Elite, filme fascista?

Luiz Zanin Oricchio

26 de setembro de 2007 | 17h19

Desconfio que as eventuais virtudes cinematográficas de Tropa de Elite, de José Padilha,acabarão em segundo plano, pelo menos por enquanto. O que irá se discutir é se o filme é “fascista” ou não. Essa preocupação tem aparecido, menos pelo filme em si, do que pelas reações que tem despertado nas platéias onde foi exibido, no Rio de Janeiro em particular. Boa parte do público aplaude quando os policiais do Bope torturam ou matam de maneira sumária. Ora, a reação não é nova e se repete em situações de insegurança pública como a que vivemos hoje. É semelhante ao apoio ao Esquadrão da Morte ou à palavra de ordem “Rota na rua”, que já ouvimos aqui em São Paulo. Em suma, a solução pela violência. O filme induz a isso? Bem, as platéias têm respondido que sim.

No entanto, o protagonista, o capitão Nascimento vivido por Wagner Moura, é um homem em conflito. Leva aquilo que considera sua missão a ferro e a fogo, mas está louco para se livrar do comando e transformar-se em instrutor da tropa. Quer sair da linha de fogo, dedicar-se à família, e para isso terá de fazer um sucessor. Essa divisão interna bastará para fazer de Tropa de Elite um filme “aberto” a conclusões? Esse é um ponto a ser discutido.

Outro aspecto: não há dúvida que Tropa de Elite põe em pauta uma espécie de pragmatismo bem contemporâneo. O Bope (Batalhão de Operações Especiais da PM carioca) se define como “incorruptível”, o que soa como música para um público que elegeu a corrupção como o principal problema do País. Incorruptível, o Bope, na pessoa do capitão Nascimento, se permite extrapolar suas funções policiais. Prende e tortura em busca de informações, julga e executa as sentenças – em geral, de morte. Livre do pecado principal, a corrupção, pode se permitir qualquer tipo de barbárie, ao arrepio da lei. O Bope é uma ilha de moralidade, cercada de corruptos por todos os lados. Nesse sentido, por se definir exceção ética, com exclusão de todo o entorno restante, venal,Tropa de Choque consolida-se como um filme para o momento, portanto, e não apenas porque trata do tráfico de drogas e da violência urbana. Bate em cheio no imaginário de determinada parcela da sociedade e na posição que ela supõe ocupar no contexto do País.O Bope não se vende. E, se exagera, é porque as circunstâncias especiais assim o exigem. Os fins justificam os meios.

Não é à-toa, portanto, que tem propiciado esse tipo de reação catártica de gente que costuma freqüentar os cinemas. São pessoas que estão fartas da insegurança urbana e cansadas da corrupção em todos os níveis, da polícia à política. O filme, portanto, presta-se como eficiente estopim desse tipo de reação emocional.

Isso não quer dizer que Tropa de Elite contenha uma mensagem explicitamente “fascista”, considerando esse termo, com alguma liberdade, sinônimo de atitudes sociais como intolerância, adesão a situações violentas, pouca disposição ao diálogo, autoritarismo, um nacionalismo primitivo, negação da diferença, etc. Seria simplismo confundir a obra com a reação que pode, eventualmente, provocar em determinado tipo de público. Seria o mesmo que condenar Wagner por ter servido como trilha sonora da barbárie nazista.

Portanto, seria preciso analisá-lo mais a fundo, como filme. E verificar se, em sua narrativa, existem espaços abertos para a contradição e a respiração crítica. Por exemplo, o personagem em crise seria um desses pontos de abertura e ele seria suficiente para despertar mais questões que certezas? Pode ser, mas, talvez, a narrativa em off, constante ao longo de todo o tempo, iniba um pouco a liberdade do espectador de construir a própria história em sua cabeça e tirar conclusões mais abertas, pelo menos durante o tempo em que está na sala. Porque, sim, um filme se constrói sobretudo depois que o vemos, na maneira como o assimilamos e o discutimos na volta para casa, no bar com os amigos, na conversa com a namorada.

Não me parece que o público, como um todo, seja tão influenciável a ponto de assumir como seu um determinado ponto de vista, que seria o do diretor, ou, menos ainda, o de um determinado personagem. Minha tendência é ver essas reações pontuais da platéia carioca como manifestações de um momento particularmente histérico da vida brasileira. O filme, em si, não pode ser culpabilizado por isso. Mas é uma primeira impressão, parcial, que ainda precisa ser discutida.

A outra questão, também a ser debatida, é a expectativa criada em torno do filme, e que acaba sendo o fator que alimenta a venda de cópias piratas, um fenômeno, que eu saiba, jamais visto em se tratando de produção nacional. Apesar de todo o discurso em torno dos prejuízos comerciais com a pirataria, a Paramount já avisou que o filme será lançado com mais de 200 cópias em 12 de outubro. Ao que parece, os estragos com o vasamento de uma cópia, matriz das piratas, não devem ser tantos assim. Talvez pessoas que não assistiriam ao filme de outra maneira, o vejam em cópias piratas, mas esta é uma longa e inevitável discussão num país em que o salário mínimo é de R$ 380 e um ingresso de cinema em shopping chega a R$ 18.

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