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Tropa de Elite 2 arrebenta

Luiz Zanin Oricchio

11 de outubro de 2010 | 11h27

Leio que Tropa de Elite 2 arrebentou na bilheteria do fim de semana. Foi visto por pelo menos 1,25 milhão de pessoas na abertura – o recordista anterior, Chico Xavier, teve 585 mil no primeiro fim de semana. A largada faz prever uma carreira excepcional dessa continuação da história do capitão Nascimento, dirigida por José Padilha. Abaixo, mais algumas palavras sobre o filme.

Ninguém, espera-se, vai negar o mérito cinematográfico dessa mistura de thriller político, drama policial e filme de máfia. Com alguns bambas nos créditos técnicos (Lula Carvalho na fotografia, Daniel Rezende na montagem, Braulio Mantovani no roteiro, elenco de ponta), e ele mesmo regendo o coro, José Padilha apresenta um filme forte, de impacto, feito para incomodar, provocar reações, favoráveis ou contrárias. Ninguém que o veja há de ficar indiferente – o que, confirmado, será grande feito numa época em que quase tudo cai no vazio.

Essa força de Tropa de Elite 2 vem de sua qualidade de espetáculo cinematográfico mas, também, de um aumento de complexidade do personagem principal. Se no Tropa 1, o então capitão Nascimento ainda era um personagem um tanto plano (apesar de algumas crises de consciência), aqui ele ganha mais arestas. Promovido a tenente-coronel e transformado em subsecretário de Segurança do Rio de Janeiro, Nascimento (Wagner Moura) terá de reavaliar algumas de suas certezas e inclusive reconsiderar o tipo humano que mais parece desprezar, um militante dos direitos humanos – Fraga, na ótima interpretação de Irandhir Santos. Nascimento terá ainda de encarar o conflito com o filho adolescente.

Para adensar também sua trama, Padilha busca pontos de contato na realidade – Fraga é inspirado em Marcelo Freixo, deputado do PSOL que presidiu a CPI das milícias no Rio; a jornalista vivida por Tainá Müller é uma referência clara ao repórter assassinado Tim Lopes, e por aí vai. Esses pontos de contato com o real são explicitados desde o início, quando se avisa que aquela é uma obra de ficção, mas que se parece demais com a realidade.

Então, que ninguém se iluda. Tropa de Elite 2 pode ser um filmaço etc., mas sua vocação maior é ser um comentário ácido sobre o País, visto por um dos seus ângulos mais frágeis, a segurança pública. Pode ser visto como fecho de um tríptico sobre o tema. Em seu primeiro longa-metragem, o documenário Ônibus 174, Padilha mostrava como se fabrica um criminoso pé-de-chinelo como Sandro Nascimento. Em Tropa de Elite 1, examinava as entranhas de uma corporação policial. Agora, deseja ir muito além e fala da promiscuidade entre o crime organizado e a máquina do Estado. Chama de “sistema” a essa aliança espúria e apresenta seu diagnóstico – a cabeça da serpente deve ser buscada na esfera política.

Ou seja, para quem lhe cobrava por uma falta de contextualização em Tropa 1, Padilha responde indo do microuniverso do crime ao macro da política em Tropa 2. No entanto, o didatismo da narração em off e um certo cartesianismo o impedem de dar conta da complexidade do tema. Não raro recorre a clichês (os policiais corruptos, o jornalista venal, etc.). E o uso hábil de bordões de linguagem e violência buscam a catarse do público. Muito mais do que a reflexão. Cai num impasse – se o problema da segurança é político, apenas uma resposta política pode enfrentá-lo. Mas como esperá-la, se o sistema político é visto como corroído por dentro? Nesse sentido, o sobrevoo da câmera sobre Brasília pode ser uma catarse a mais proposta ao público – nesta época de descrédito e pessimismo em relação à atividade política.

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